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Sunday, October 13, 2013

Saturday, October 12, 2013

Panorama da Belém em que viveu Henry Walter Bates em pintura de Giuseppe Leone Righini.
Antes de deixar o assunto do Pará, onde residi, como já disse, durante 18 meses, é necessário dar uma noção mais minuciosa de vários pontos relacionados com os costumes do povo e a história natural dos arredores, que até agora apenas de leve mencionei. Reservo a notícia sobre o comércio e progresso do Pará em 1859 para o fim desta narrativa.
Giuseppe Leone (Joseph Léon) Righini (c.1820-1884), Panorama of Belém do Pará, Brazil

More Information: http://artdaily.com/index.asp?int_sec=2&int_new=51193#.Uk-CKVO0yjc[/url]
Copyright © artdaily.org
Houve, durante as primeiras semanas de nossa estada, muitas festas religiosas, que ocupavam grande parte do tempo e das preocupações do povo. Eram manifestações esplêndidas, com procissões artisticamente arranjadas, percorrendo as ruas, acompanhadas por milhares de pessoas, paradas militares, fogos de artifício e o clamor de músicas militares se juntavam às pompas das cerimônias religiosas nas igrejas. Para os que tinham assistido a cerimônias semelhantes nos países do Sul da Europa, estas nada tinham de notável, exceto realizarem-se no meio dos esplendores de uma natureza tropical; mas para mim elas eram cheias de novidade, e interessantes sobretudo porque me mostravam muito do que era peculiar na maneira do povo. As festas celebram os aniversários dos santos ou os acontecimentos mais importantes da vida de Cristo. Acrescentaram-se a estes, depois da Independência, muitos dias de gala em correlação com os acontecimentos da história nacional brasileira; mas todos têm um caráter semirreligioso. Os dias santos eram tão numerosos e perturbavam tanto o comércio e a indústria em 1852, que o Governo foi obrigado a reduzi-los, obtendo a necessária permissão de Roma para abolir alguns de menor significação. Muitos, dos que tinham sido conservados, estavam diminuindo de importância depois da introdução das estradas de ferro e dos paquetes, dedicando-se mais o povo ao comércio. Quando aí chegamos, porém, estavam em todo o seu esplendor. As festas realizavam-se obedecendo geralmente ao seguinte cerimonial: anualmente elegia-se, na sacristia da igreja, um diretor geral da festa, ou "juiz" e a ele cabia administrar todos os parafernais concernentes à festa para a qual tinha sido feito — imagem do santo, bandeiras, coroas de prata, etc. Ele encarregava algumas pessoas para que visitassem os paroquianos e colhessem esmolas, para fazer face às despesas. Considerava-se que quanto mais se gastasse em velas de cera, fogos de artifícios, músicas e banquetes, maiores seriam as honras prestadas ao santo. Se o juiz era rico, raramente apelava para as esmolas, celebrando a festa à sua custa, subindo as despesas, às vezes, a várias centenas de libras. Cada festa durava nove dias (uma novena) e em muitos casos serviam-se bebidas ao povo todas as noites. Nas cidades menores há baile duas ou três noites durante a novena e no último dia um grande jantar. O padre, naturalmente, tem que ser pago com muita liberalidade, especialmente pelo sermão feito no dia Santo ou na terminação do festival, pois os sermões são um serviço extraordinário no Brasil.
Há muita diferença nos acessórios destes festivais das cidades e vilas do interior e os da capital; mas pouco se trabalha durante a sua realização, e eles contribuem muito para desmoralizar o povo. Percebe-se logo que a religião é, para a maioria dos paraenses, mais um divertimento que um dever. As ideias da maioria evidentemente não vão além da crença de que todos os festejos são feitos, em cada caso, em honra da imagem de madeira posta no altar da igreja. Os imigrantes portugueses sem educação parecem-me ter noções muito falsas da religião. Muitas vezes viajei em companhia desses brilhantes exemplos da civilização europeia. Geralmente carregam consigo, onde quer que vão, uma pequena imagem de algum santo favorito, e quando há tempestade ou qualquer outro perigo, seu primeiro cuidado é correr para o camarote, tomar a imagem e levá-la aos lábios, enquanto balbuciam uma oração pedindo socorro. Os negros e mulatos são, neste particular, muito parecidos com os portugueses, mas eu acho que eles mostram um sentimento de mais pura devoção; e em conversa, sempre observei que mostravam vistas mais racionais em sua religião do que as classes baixas de portugueses. Quanto aos índios, com exceção das famílias mais civilizadas, morando perto das grandes cidades, não demonstravam nenhum sentimento religioso. Eles tem o seu patrono, São Tomé, e celebram seu aniversário de maneira pouco ortodoxa, pois não são muito ciosos em observar todas as formalidades, mas acham que os festejos têm a mesma importância que as cerimônias da igreja. Em alguns dos festivais as mascaradas ocupam grande parte das festas e os índios realmente brilham nas mesmas. Fazem imitações dos animais selvagens, vestem-se para representar a caipora e outras criaturas fabulosas da floresta, e representam os seus papéis com grande habilidade. Quando chega a festa de São Tomé, todos aqueles, que têm índios ao seu serviço, sabem que seus homens vão embriagar-se. O índio, que é geralmente muito tímido, para pedir cachaça se torna então muito animoso; ele pede um garrafão (duas garrafas e meia) e diz que está se embriagando em honra de São Tomé.

Na cidade do Pará, o governo provincial concorre para o aumento do esplendor dos dias santos. As procissões que percorrem as ruas principais têm, em primeiro lugar, a imagem do santo e as de vários outros, pertencentes à mesma igreja, carregadas nos ombros de respeitáveis cidadãos, que voluntariamente se oferecem: às vezes vemos o nosso vizinho, o carpinteiro ou o açougueiro, gemendo sob o peso. O padre e os coadjutores precedem as imagens, com paramentos bordados e protegidos por magníficas umbrelas, ornamento que não é inútil aqui, pois o calor é muito grande, quando o sol não é obscurecido. De cada lado caminha longa fila de homens, com opas vermelhas, cada qual levando um brandão aceso. Atrás vai um regimento de infantaria com a banda de música, e atrás de tudo a multidão: a gente de cor limpamente vestida e conservando uma conduta circunspecta. As mulheres são sempre em grande número, com os bastos cabelos negros enfeitados de jasmins, orquídeas brancas e outras flores tropicais. Vestem-se com os costumados atavios dos dias de festa, com blusas de gaze e saias de seda preta; no pescoço levam colares de contas de ouro que, nas escravas, são de propriedade das senhoras, que gostam de mostrar assim a riqueza.
À noite, quando as festas se passam nas praças em torno das igrejas dos subúrbios, há realmente muita coisa que admirar. Muita particularidade da terra e vida de seus habitantes pode ser então melhor apreciada. A graciosa igreja branca fica brilhantemente iluminada e a música, que não é de tons muito solenes, repercute através das portas e janelas. Grande número de negrotas bizarramente vestidas ficam no caminho que leva às portas da igreja, com tabuleiros de licores, doces e cigarros, que vendem aos que estão do lado de fora. A pouca distância ouve-se o ruído de dados e roletas armadas ao ar livre. Quando a festa tem lugar em noites de luar a cena é maravilhosa para o recém-chegado. Em torno da praça há grupos de altas palmeiras, e mais longe, acima das casas iluminadas, aparecem as copas das mangueiras, perto das estradas suburbanas, donde chega o eterno bulício da vida dos insetos. O suave luar tropical derrama maravilhoso encantamento sobre o conjunto. Os habitantes estão todos nas ruas, com suas melhores roupas. As classes mais elevadas, que vêm gozar da alegria geral, estão sentadas em cadeiras, à porta de casas amigas. Não há uma ruidosa jovialidade mas uma alegria sossegada, que parece sentida por todos, com delicadas regras de cortesia entre todas as classes e cores. Vi um coronel em grande gala, do palácio do Presidente, dirigir-se a um mulato e delicadamente pedir-lhe fogo para acender o charuto. Quando termina a ladainha, tangem os sinos da igreja e uma girândola de foguetes sobe ao ar, tocam as bandas de música e os pares de pessoas de cor começam as danças. As dez horas toca-se o Hino Nacional e todos se dispersam e sossegadamente voltam para casa.
(...) A festa maior e mais imponente era a que se realizava em honra de Nossa Senhora de Nazaré, e que é, segundo penso, privativa do Pará. Como já disse, cai no quarto crescente, em meados da estação seca, isto é, em outubro ou novembro, e dura, como as outras, nove dias. No primeiro dia tem lugar uma enorme procissão, partindo da catedral, para onde a santa foi trazida alguns dias antes, e terminando na capela ou ermida (como chamam), da santa, em Nazaré, a uma distância de mais de duas milhas. Toda a população vem para a rua nessa ocasião. Todos os soldados, tanto de linha, como da Guarda Nacional, tomam parte na procissão, cada batalhão acompanhado por sua banda de música. Acompanham-na também as autoridades civis, com o presidente à frente, bem como as pessoas gradas, inclusive muitos residentes estrangeiros. O bote dos náufragos portugueses é transportado, atrás da santa, nos ombros de oficiais de marinha e marinheiros, e em seguida vêm os outros símbolos dos milagres realizados por Nossa Senhora. A procissão tem início logo que o sol começa a declinar, isto é, mais ou menos às quatro e meia da tarde. Quando se deposita a imagem na capela, considera-se a festa como inaugurada, e a aldeia é, todas as noites, o ponto de reunião da população que procura divertir-se, sendo a parte festiva do programa precedida, naturalmente, por um serviço religioso na capela. O aspecto da praça é então o de uma feira, sem o bom humor e a galhofa de festas semelhantes na Inglaterra, mas também sem a sua algazarra e grosseria. Preparam-se grandes salas para vistas panorâmicas e outros divertimentos onde o público tem entrada grátis. Há todas as noites grande queima de fogos de artifício, tudo obedecendo a um programa publicado da festa.

*In: BATES, Henry Walter. Um naturalista no Rio Amazonas. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1944, pp. 121-127.

Henry Walter Bates nasceu em Leicester, a 8 de fevereiro de 1825. Ansiando pertencer ao seleto grupo da comunidade científica, mesmo impossibilitado de ter formação acadêmica e com recursos limitados, em 1844 associou-se ao também naturalista Alfred Russel Wallace (1823-1913), para, juntos, excursionarem pelos rios Tocantins e Amazonas, em busca de informações sobre a origem das espécies. Durante a expedição, que durou cerca de onze anos, Bates se destacou por ser metódico e dedicado, recolhendo uma coleção de 14.712 espécies, sendo 8.000 desconhecidas. Após retornar à Inglaterra em 1859, teve seu trabalho reconhecido o que lhe permitiu atuar como secretário-assistente da Sociedade Real de Geografia de Londres, colaborador da Linnean Society e da Entomological Society. Bates tornou-se um reconhecido entomólogo, elogiado inclusive por Charles Darwin (1809-1822), que prefaciou a edição original de The Naturalist on the River Amazons, a Record of Adventures, Habits of Animals, Sketches of Brazilian and Indian Life (1863). Darwin tinha motivos para tal, pois a coleção contribuiu decisivamente para o progresso de suas teorias acerca da evolução das espécies. Bates deixou ainda uma importante descrição dos usos e costumes dos locais por onde passou, especialmente Belém, onde residiu por um ano e meio. Ele faleceu em Londres, a 16 de fevereiro de 1892.

Daguerreótipo #21: as festas religiosas de Belém por Henry Walter Bates*

Panorama da Belém em que viveu Henry Walter Bates em pintura de Giuseppe Leone Righini.
Antes de deixar o assunto do Pará, onde residi, como já disse, durante 18 meses, é necessário dar uma noção mais minuciosa de vários pontos relacionados com os costumes do povo e a história natural dos arredores, que até agora apenas de leve mencionei. Reservo a notícia sobre o comércio e progresso do Pará em 1859 para o fim desta narrativa.
Giuseppe Leone (Joseph Léon) Righini (c.1820-1884), Panorama of Belém do Pará, Brazil

More Information: http://artdaily.com/index.asp?int_sec=2&int_new=51193#.Uk-CKVO0yjc[/url]
Copyright © artdaily.org
Houve, durante as primeiras semanas de nossa estada, muitas festas religiosas, que ocupavam grande parte do tempo e das preocupações do povo. Eram manifestações esplêndidas, com procissões artisticamente arranjadas, percorrendo as ruas, acompanhadas por milhares de pessoas, paradas militares, fogos de artifício e o clamor de músicas militares se juntavam às pompas das cerimônias religiosas nas igrejas. Para os que tinham assistido a cerimônias semelhantes nos países do Sul da Europa, estas nada tinham de notável, exceto realizarem-se no meio dos esplendores de uma natureza tropical; mas para mim elas eram cheias de novidade, e interessantes sobretudo porque me mostravam muito do que era peculiar na maneira do povo. As festas celebram os aniversários dos santos ou os acontecimentos mais importantes da vida de Cristo. Acrescentaram-se a estes, depois da Independência, muitos dias de gala em correlação com os acontecimentos da história nacional brasileira; mas todos têm um caráter semirreligioso. Os dias santos eram tão numerosos e perturbavam tanto o comércio e a indústria em 1852, que o Governo foi obrigado a reduzi-los, obtendo a necessária permissão de Roma para abolir alguns de menor significação. Muitos, dos que tinham sido conservados, estavam diminuindo de importância depois da introdução das estradas de ferro e dos paquetes, dedicando-se mais o povo ao comércio. Quando aí chegamos, porém, estavam em todo o seu esplendor. As festas realizavam-se obedecendo geralmente ao seguinte cerimonial: anualmente elegia-se, na sacristia da igreja, um diretor geral da festa, ou "juiz" e a ele cabia administrar todos os parafernais concernentes à festa para a qual tinha sido feito — imagem do santo, bandeiras, coroas de prata, etc. Ele encarregava algumas pessoas para que visitassem os paroquianos e colhessem esmolas, para fazer face às despesas. Considerava-se que quanto mais se gastasse em velas de cera, fogos de artifícios, músicas e banquetes, maiores seriam as honras prestadas ao santo. Se o juiz era rico, raramente apelava para as esmolas, celebrando a festa à sua custa, subindo as despesas, às vezes, a várias centenas de libras. Cada festa durava nove dias (uma novena) e em muitos casos serviam-se bebidas ao povo todas as noites. Nas cidades menores há baile duas ou três noites durante a novena e no último dia um grande jantar. O padre, naturalmente, tem que ser pago com muita liberalidade, especialmente pelo sermão feito no dia Santo ou na terminação do festival, pois os sermões são um serviço extraordinário no Brasil.
Há muita diferença nos acessórios destes festivais das cidades e vilas do interior e os da capital; mas pouco se trabalha durante a sua realização, e eles contribuem muito para desmoralizar o povo. Percebe-se logo que a religião é, para a maioria dos paraenses, mais um divertimento que um dever. As ideias da maioria evidentemente não vão além da crença de que todos os festejos são feitos, em cada caso, em honra da imagem de madeira posta no altar da igreja. Os imigrantes portugueses sem educação parecem-me ter noções muito falsas da religião. Muitas vezes viajei em companhia desses brilhantes exemplos da civilização europeia. Geralmente carregam consigo, onde quer que vão, uma pequena imagem de algum santo favorito, e quando há tempestade ou qualquer outro perigo, seu primeiro cuidado é correr para o camarote, tomar a imagem e levá-la aos lábios, enquanto balbuciam uma oração pedindo socorro. Os negros e mulatos são, neste particular, muito parecidos com os portugueses, mas eu acho que eles mostram um sentimento de mais pura devoção; e em conversa, sempre observei que mostravam vistas mais racionais em sua religião do que as classes baixas de portugueses. Quanto aos índios, com exceção das famílias mais civilizadas, morando perto das grandes cidades, não demonstravam nenhum sentimento religioso. Eles tem o seu patrono, São Tomé, e celebram seu aniversário de maneira pouco ortodoxa, pois não são muito ciosos em observar todas as formalidades, mas acham que os festejos têm a mesma importância que as cerimônias da igreja. Em alguns dos festivais as mascaradas ocupam grande parte das festas e os índios realmente brilham nas mesmas. Fazem imitações dos animais selvagens, vestem-se para representar a caipora e outras criaturas fabulosas da floresta, e representam os seus papéis com grande habilidade. Quando chega a festa de São Tomé, todos aqueles, que têm índios ao seu serviço, sabem que seus homens vão embriagar-se. O índio, que é geralmente muito tímido, para pedir cachaça se torna então muito animoso; ele pede um garrafão (duas garrafas e meia) e diz que está se embriagando em honra de São Tomé.

Na cidade do Pará, o governo provincial concorre para o aumento do esplendor dos dias santos. As procissões que percorrem as ruas principais têm, em primeiro lugar, a imagem do santo e as de vários outros, pertencentes à mesma igreja, carregadas nos ombros de respeitáveis cidadãos, que voluntariamente se oferecem: às vezes vemos o nosso vizinho, o carpinteiro ou o açougueiro, gemendo sob o peso. O padre e os coadjutores precedem as imagens, com paramentos bordados e protegidos por magníficas umbrelas, ornamento que não é inútil aqui, pois o calor é muito grande, quando o sol não é obscurecido. De cada lado caminha longa fila de homens, com opas vermelhas, cada qual levando um brandão aceso. Atrás vai um regimento de infantaria com a banda de música, e atrás de tudo a multidão: a gente de cor limpamente vestida e conservando uma conduta circunspecta. As mulheres são sempre em grande número, com os bastos cabelos negros enfeitados de jasmins, orquídeas brancas e outras flores tropicais. Vestem-se com os costumados atavios dos dias de festa, com blusas de gaze e saias de seda preta; no pescoço levam colares de contas de ouro que, nas escravas, são de propriedade das senhoras, que gostam de mostrar assim a riqueza.
À noite, quando as festas se passam nas praças em torno das igrejas dos subúrbios, há realmente muita coisa que admirar. Muita particularidade da terra e vida de seus habitantes pode ser então melhor apreciada. A graciosa igreja branca fica brilhantemente iluminada e a música, que não é de tons muito solenes, repercute através das portas e janelas. Grande número de negrotas bizarramente vestidas ficam no caminho que leva às portas da igreja, com tabuleiros de licores, doces e cigarros, que vendem aos que estão do lado de fora. A pouca distância ouve-se o ruído de dados e roletas armadas ao ar livre. Quando a festa tem lugar em noites de luar a cena é maravilhosa para o recém-chegado. Em torno da praça há grupos de altas palmeiras, e mais longe, acima das casas iluminadas, aparecem as copas das mangueiras, perto das estradas suburbanas, donde chega o eterno bulício da vida dos insetos. O suave luar tropical derrama maravilhoso encantamento sobre o conjunto. Os habitantes estão todos nas ruas, com suas melhores roupas. As classes mais elevadas, que vêm gozar da alegria geral, estão sentadas em cadeiras, à porta de casas amigas. Não há uma ruidosa jovialidade mas uma alegria sossegada, que parece sentida por todos, com delicadas regras de cortesia entre todas as classes e cores. Vi um coronel em grande gala, do palácio do Presidente, dirigir-se a um mulato e delicadamente pedir-lhe fogo para acender o charuto. Quando termina a ladainha, tangem os sinos da igreja e uma girândola de foguetes sobe ao ar, tocam as bandas de música e os pares de pessoas de cor começam as danças. As dez horas toca-se o Hino Nacional e todos se dispersam e sossegadamente voltam para casa.
(...) A festa maior e mais imponente era a que se realizava em honra de Nossa Senhora de Nazaré, e que é, segundo penso, privativa do Pará. Como já disse, cai no quarto crescente, em meados da estação seca, isto é, em outubro ou novembro, e dura, como as outras, nove dias. No primeiro dia tem lugar uma enorme procissão, partindo da catedral, para onde a santa foi trazida alguns dias antes, e terminando na capela ou ermida (como chamam), da santa, em Nazaré, a uma distância de mais de duas milhas. Toda a população vem para a rua nessa ocasião. Todos os soldados, tanto de linha, como da Guarda Nacional, tomam parte na procissão, cada batalhão acompanhado por sua banda de música. Acompanham-na também as autoridades civis, com o presidente à frente, bem como as pessoas gradas, inclusive muitos residentes estrangeiros. O bote dos náufragos portugueses é transportado, atrás da santa, nos ombros de oficiais de marinha e marinheiros, e em seguida vêm os outros símbolos dos milagres realizados por Nossa Senhora. A procissão tem início logo que o sol começa a declinar, isto é, mais ou menos às quatro e meia da tarde. Quando se deposita a imagem na capela, considera-se a festa como inaugurada, e a aldeia é, todas as noites, o ponto de reunião da população que procura divertir-se, sendo a parte festiva do programa precedida, naturalmente, por um serviço religioso na capela. O aspecto da praça é então o de uma feira, sem o bom humor e a galhofa de festas semelhantes na Inglaterra, mas também sem a sua algazarra e grosseria. Preparam-se grandes salas para vistas panorâmicas e outros divertimentos onde o público tem entrada grátis. Há todas as noites grande queima de fogos de artifício, tudo obedecendo a um programa publicado da festa.

*In: BATES, Henry Walter. Um naturalista no Rio Amazonas. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1944, pp. 121-127.

Henry Walter Bates nasceu em Leicester, a 8 de fevereiro de 1825. Ansiando pertencer ao seleto grupo da comunidade científica, mesmo impossibilitado de ter formação acadêmica e com recursos limitados, em 1844 associou-se ao também naturalista Alfred Russel Wallace (1823-1913), para, juntos, excursionarem pelos rios Tocantins e Amazonas, em busca de informações sobre a origem das espécies. Durante a expedição, que durou cerca de onze anos, Bates se destacou por ser metódico e dedicado, recolhendo uma coleção de 14.712 espécies, sendo 8.000 desconhecidas. Após retornar à Inglaterra em 1859, teve seu trabalho reconhecido o que lhe permitiu atuar como secretário-assistente da Sociedade Real de Geografia de Londres, colaborador da Linnean Society e da Entomological Society. Bates tornou-se um reconhecido entomólogo, elogiado inclusive por Charles Darwin (1809-1822), que prefaciou a edição original de The Naturalist on the River Amazons, a Record of Adventures, Habits of Animals, Sketches of Brazilian and Indian Life (1863). Darwin tinha motivos para tal, pois a coleção contribuiu decisivamente para o progresso de suas teorias acerca da evolução das espécies. Bates deixou ainda uma importante descrição dos usos e costumes dos locais por onde passou, especialmente Belém, onde residiu por um ano e meio. Ele faleceu em Londres, a 16 de fevereiro de 1892.

Friday, March 29, 2013

Palavra de honra, começo a me aperceber, tremendo, de que estou mesmo ficando velho. Não são apenas os pés mais pesados, quando o corpo está mais leve, não é somente a vista cansada, a reclamar hoje óculos e amanhã binóculos. É o espírito, saudoso, que já teima em olhar para trás. Sim, os espíritos também olham e olham muito. Como os tralhotos do padre Vieira, que têm olhos para o mar e para o céu, para os peixes e para as aves, eles devem ter também para este e para o outro mundo, para a vida e para a morte...
Mas é isto: há uma mudança nas coisas. Se não fui eu, foi a Semana Santa que mudou. Lembrei-me até do soneto famoso do outro Machado, o verdadeiro, o de Assis:
- "Mudaria o Natal ou mudei eu?"
O fato é que a Semana Santa, pelo menos a que trago na lembrança, era bastante diferente. Como? Mais bonito, mais emocionante, estive também para dizer mais séria, isto é, mais circunspecta. Ninguém falava na Igreja e a própria agonia do Cristo era mais longa e mais dolorosa. Homens, mulheres, velhos e crianças ouviam os sermões dos padres - comovedores sermões de lágrimas - com um ódio danado de Pilatos, esse pobre Procurador da Judéia que, segundo [o escritor francês] Anatole, fora lavar as mãos para tirar a poeira que havia nelas...
E como os dias e as noites eram inteiramente para desfiar rosários, chegava-se ao Sábado da Aleluia mortificado de rezas e jejuns... Oh, o Sábado da Aleluia! Ruidoso dia, cuja alvorada eram os gritos dos meninos apanhando pelas faltas cometidas durante a semana em que ninguém ousara castigá-los para não cair em pecado mortal. 
Os Judas, por sua vez, como não representavam o povo nas Assembléias, traindo os respectivos mandatos, ou mesmo sem os trair, eram muito mais generosos, contemplando em seus testamentos amigos e inimigos.
Nem por isso, coitados, deixavam de expiar na forca a sua falta, pois havia galhos de figueira de sobra, ou seja, havia mais postes que Judas. Agora não, há mais Judas do que postes. Até nem há postes, só há postes para os Judas...
Semana Santa... Rezas... Judas... O tempo muda muito e nisto estou com o mestre Calino, cujas máximas, como vêem, são assim tão simples e profundas...

* COÊLHO, Inocêncio Machado. Sapos e Estrelas. Belém: Fundação Minerva, 2005, p. 37.

Inocêncio Machado Coelho nasceu em Belém a 17 de maio de 1909. Depois de fazer seus primeiros estudos na cidade de Bragança, onde seu pai, fiscal dos Correios e Telégrafos, residiu durante alguns anos, retornou a Belém, onde estudou no conceituado Lyceu Paraense, hoje a Escola Estadual Paes de Caravalho. A morte prematura do pai, contudo, o alçou à condição de arrimo de família, o que o impediu de continuar seus estudos de forma sistemática, tornando-se assim um autodidata. Iniciou sua carreira literária trabalhando como jornalista no Estado do Pará, na Folha do Norte e em A Província do Pará, no qual manteve, entre os anos de 1952 e 1953, uma coluna semanal chamada "Sapos e Estrelas", onde a crônica aqui reproduzida foi originalmente publicada. Marcadas por uma "heterogeneidade temática" e por um estilo descontraído, em 2005 elas foram reunidas em um volume lançado por sua família. Exerceu ainda diversos cargos públicos de relevo como, por exemplo, diretor do Museu Paranse Emilio Goeldi na década de 1940. Foi membro da Academia Paraense de Letras, do Conselho Estadual de Cultura e do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. Publicou, entre outros trabalhos, "O feitiço na literatura, na arte e na vida" (1963). Inocêncio Machado Coelho morreu em Belém, no dia 23 de novembro de 2001. 

Daguerreótipo #18: a Semana Santa*

Palavra de honra, começo a me aperceber, tremendo, de que estou mesmo ficando velho. Não são apenas os pés mais pesados, quando o corpo está mais leve, não é somente a vista cansada, a reclamar hoje óculos e amanhã binóculos. É o espírito, saudoso, que já teima em olhar para trás. Sim, os espíritos também olham e olham muito. Como os tralhotos do padre Vieira, que têm olhos para o mar e para o céu, para os peixes e para as aves, eles devem ter também para este e para o outro mundo, para a vida e para a morte...
Mas é isto: há uma mudança nas coisas. Se não fui eu, foi a Semana Santa que mudou. Lembrei-me até do soneto famoso do outro Machado, o verdadeiro, o de Assis:
- "Mudaria o Natal ou mudei eu?"
O fato é que a Semana Santa, pelo menos a que trago na lembrança, era bastante diferente. Como? Mais bonito, mais emocionante, estive também para dizer mais séria, isto é, mais circunspecta. Ninguém falava na Igreja e a própria agonia do Cristo era mais longa e mais dolorosa. Homens, mulheres, velhos e crianças ouviam os sermões dos padres - comovedores sermões de lágrimas - com um ódio danado de Pilatos, esse pobre Procurador da Judéia que, segundo [o escritor francês] Anatole, fora lavar as mãos para tirar a poeira que havia nelas...
E como os dias e as noites eram inteiramente para desfiar rosários, chegava-se ao Sábado da Aleluia mortificado de rezas e jejuns... Oh, o Sábado da Aleluia! Ruidoso dia, cuja alvorada eram os gritos dos meninos apanhando pelas faltas cometidas durante a semana em que ninguém ousara castigá-los para não cair em pecado mortal. 
Os Judas, por sua vez, como não representavam o povo nas Assembléias, traindo os respectivos mandatos, ou mesmo sem os trair, eram muito mais generosos, contemplando em seus testamentos amigos e inimigos.
Nem por isso, coitados, deixavam de expiar na forca a sua falta, pois havia galhos de figueira de sobra, ou seja, havia mais postes que Judas. Agora não, há mais Judas do que postes. Até nem há postes, só há postes para os Judas...
Semana Santa... Rezas... Judas... O tempo muda muito e nisto estou com o mestre Calino, cujas máximas, como vêem, são assim tão simples e profundas...

* COÊLHO, Inocêncio Machado. Sapos e Estrelas. Belém: Fundação Minerva, 2005, p. 37.

Inocêncio Machado Coelho nasceu em Belém a 17 de maio de 1909. Depois de fazer seus primeiros estudos na cidade de Bragança, onde seu pai, fiscal dos Correios e Telégrafos, residiu durante alguns anos, retornou a Belém, onde estudou no conceituado Lyceu Paraense, hoje a Escola Estadual Paes de Caravalho. A morte prematura do pai, contudo, o alçou à condição de arrimo de família, o que o impediu de continuar seus estudos de forma sistemática, tornando-se assim um autodidata. Iniciou sua carreira literária trabalhando como jornalista no Estado do Pará, na Folha do Norte e em A Província do Pará, no qual manteve, entre os anos de 1952 e 1953, uma coluna semanal chamada "Sapos e Estrelas", onde a crônica aqui reproduzida foi originalmente publicada. Marcadas por uma "heterogeneidade temática" e por um estilo descontraído, em 2005 elas foram reunidas em um volume lançado por sua família. Exerceu ainda diversos cargos públicos de relevo como, por exemplo, diretor do Museu Paranse Emilio Goeldi na década de 1940. Foi membro da Academia Paraense de Letras, do Conselho Estadual de Cultura e do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. Publicou, entre outros trabalhos, "O feitiço na literatura, na arte e na vida" (1963). Inocêncio Machado Coelho morreu em Belém, no dia 23 de novembro de 2001. 

Friday, November 2, 2012

Até princípios do século XIX, não existia em Belém, um cemitério público.
É o que se depreende da Carta Régia datada de 14 de janeiro de 1801, autorizando D. Francisco de Sousa Coutinho, governador do Pará e Rio Negro, a construir um ou mais cemitérios - "onde hajão de ser sepultados, sem excepção, tôdas as Pessoas que falecerem".
Contudo, a determinação real não foi cumprida. Os nobres da terra continuaram a ser enterrados, nas igrejas, onde ainda existem lapides indicativas, enquanto os escravos, os condenados à morte, os acatólicos e os excomungados, no dizer dos cronistas coevos, eram sepultados numa pequena área do largo da Pólvora [atual Praça da República], entre as ruas "São Vicente de Fora" e "Cruz das Almas", denominadas hoje avenidas Serzedelo Corrêa e rua Arcipreste Manuel Teodoro.
Nesse antigo trecho [do bairro] da Campina funcionou por algum tempo o "Circo Providência", sendo depois aproveitado para a construção do edifício onde esteve instalado o jornal "A PROVÍNCIA DO PARÁ", de propriedade do famoso político Antônio José de Lemos. Incendiado mais tarde, em consequência de um motim popular, foi reconstruído, servindo atualmente de sede do Instituto Paraense de Educação e Academia Paraense de Letras.
Aspecto da capela do Cemitério da Soledade, em fotografia de Augusto Fidanza, c. 1890. Acervo Biblioteca Nacional.
Depois desse cemitério, sujeito à toda sorte de profanação, tal o abandono em que vivia, existiu um outro, nas mesmas condições do primeiro, sem cercado e sem capela, chamado "Cemitério Municipal", encravado na rua de São Vicente de Fora, entre as estradas da Constituição e da Vala, chamadas hoje de Gentil Bittencourt e Conselheiro Furtado, fazendo fundo com a travessa "Chafariz do Bispo", atual Dr. Morais. Fora este esteve na cogitação da Câmara, a abertura de outro na estrada de São José, nas proximidades do Convento, onde hoje é o Presídio. Depois de construído o muro, foi o terreno julgado impróprio, e abandonado logo depois.
No ano de 1850, chegavam ao porto de Belém, com procedência de Recife, a barca dinamarquesa "Pollux" e a charrua brasileira "Pernambucana", trazendo a bordo doentes atacados de febre amarela. Rapidamente o mal alastrou-se. Apesar das providências sanitárias tomadas pelo governo, 12.000 pessoas foram atacadas pela peste. Este número representava, na época, um terço da população da capital. Todos os recursos foram mobilizados, não só para debelar o fragelo, como para socorrer os doentes. Cenas impressionantes ocorreram nesse período calamitoso.
O presidente da Província, conselheiro Jerônimo Francisco Coelho, numa das páginas do seu Relatório, datado de 15 de agosto daquele ano, escreveu a propósito, as seguintes linhas:

"Muitos actos de caridade e de devoção entre si praticaram durante a crise os habitantes desta capital. A muitos indivíduos, a longo tempo inimizados, a compaixão e a piedade fez apagar em seus peitos os sentimentos de ódio, esqueceram antigas ofensas, e se congraçaram no leito da dôr; e tudo faz honra a seus sentimentos de philantropia, humanidade e cavalheirismo".

Em pouco menos de seis meses, a febre amarela devastou 506 vidas.
O problema do cemitério público que de há muito vinha agitando os círculos social e administrativo teve, em consequência, solucção imediata. O presidente Jerônimo Coelho ao mesmo tempo que proibia de maneira categórica, os enterramentos nas igrejas, mandava cercar e destocar o terreno do antigo "Cemitério Municipal" à rua São Vicente de Fora, que consistia, segundo as expressões do próprio conselheiro, "apenas no terreno desprezado, aberto e expôsto às profanações, onde somente se sepultavam os escravos, e algum miserável ou desvalido". Cercado o terreno e construída uma capela com a evocação de "Nossa Senhora da Soledade", o governo promoveu a inauguração do cemiério a 8 de janeiro de 1850. A benção da capela, que ainda hoje subsiste, foi dada solenemente no domingo, dia 7 de julho seguinte, pelo vigário da Freguesia da Trindade, padre Manoel Vasques da Cunha Pinto. O encarregado da construção foi o capitão Joaquim Vitorino de Sousa Cabral, cujos restos mortais repousam em artístico mausoléu ereto na área do Senhor Santo Cristo, a cuja Ordem pertencia. Data dessa época, o ofício que o presidente Jerônimo Coelho endereçou à Câmara, recomendando que não permitisse inscrições mortuárias ou epitáfios sobre as sepulturas, cujos "termos não fossem convenientes e próprios daquele estabelecimento religioso".
As obras de construção do cemitério de "Nossa Senhora da Soledade" foram orçadas em oito contos de réis, tendo o governo provincial dispendido apenas seiscentos mil réis, sendo o restante pago com donativos particulares.
O presidente Jerônimo Coelho encontrou, de início, forte oposição, não só do clero como de pessoas gradas da cidade que desejavam o restabelecimento do costume dos enterramentos nas igrejas. Eram invocados "os usos imemorais e praticas da veneranda antiguidade". Porém, a todas as reclamações fez-se surdo o conselheiro. A 25 de março de 1850, foi aprovado o Regulamento da Soledade, alterado pela Resolução n. 181 de 9 de dezembro do mesmo ano. Entre os dispositivos dessa Resolução figurava a obrigatoriedade do enterramento no cemitério, de todas as pessoas falecidas na cidade de Belém; mantida na cidade e proibição dos sepultamentos no interior das igrejas ou nos adros das mesmas, ou em cemitério a eles anexos. A infração era punida com a multa de quarenta mil réis e 30 dias de prisão.
Álbum de Belém – Antônio Lemos. Paris: Philippe Renouard, 1902.
O terreno do cemitério ficou dividido em quartéis, destinados para os monumentos particulares, para catacumbas, para sepulturas de pessoas livres e para escravos.
Às irmandades, corporações de Ordens Terceiras e religiosas, ficava assegurado o direito de comprar separada ou associadamente o terreno preciso para o sepultamento de seus componentes.
Custava cinco mil réis por braça quadrada, o terreno adquirido pelas associações religiosas, Irmandades e Ordens, sendo obrigatória a construção da grade de madeira e ferro. O Regulamento frizava, porém, que a Irmandade Militar do Santo Cristo pagaria, somente dois mil réis por braça quadrada, "em atenção ao valioso serviço que tem prestado às praças de linhas para a construção do cemitério". Para que a Soledade ficasse isolada pelas quatro faces, a Câmara Municipal comprou de Martinho de Freitas Noronha, 6 braças de terreno que este possuía contíguo ao lado norte. Nos quatro ângulos do campo, foram demarcadas as áreas para as Irmandades da "Santa Casa", da "Ordem Terceira do Carmo", da Militar do "Santo Cristo" e da "Ordem Terceira de São Francisco da Penitência". Em dezembro de 1850, estando a província sob a administração do presidente Fausto Augusto d' Aguiar, passou a Soledade ao domínio da Santa Casa, com a obrigação desta pagar à Câmara de Belém, o fôro anual de 100 réis por braça de frente do terreno. O acabamento do cemitério ficaria por conta da Misericórdia, aplicado nas obras, o legado que lhe deixara o cidadão Vicente Antônio de Miranda, um dos benfeitores daquela instituição.
E assim foi feito.  
 
* In: CRUZ, Ernesto. Procissão dos Séculos: vultos e episódios da história do Pará. Belém: Imprensa Oficial, 1952, pp. 177-179.

Ernesto Horácio da Cruz nasceu em Belém no dia 20 de novembro de 1898. Seu pai, José Antônio da Cruz, imigrou de Santana do Livramento (Rio Grande do Sul) ao Pará em busca das oportunidades surgidas com o chamado boom da borracha. José da Cruz participou ativamente da política local, na época dominada por Antônio Lemos e Lauro Sodré. Laurista convicto, José levava Ernesto ainda criança aos violentos comícios da época, quando freqüentemente se envolvia na pancadaria que marcava o final de cada um. Após concluir seus estudos, Ernesto ingressou na Escola de Agronomia do Pará para cursar Veterinária, curso que abandonou em 1922 a fim de se alistar no Exército. Servia no 26º Batalhão de Caçadores quando aderiu à Revolução de 1924. Com o fracasso do movimento foi preso, mas anistiado por Getúlio Vargas em 1930. Decidiu não retomar sua carreira militar a fim de se dedicar à sua grande paixão: a história do Pará, sobre a qual deixou uma importante produção historiográfica. Autodidata, Ernesto Cruz pautou sua obra por uma narrativa mais afastada da história política, destacando o pitoresco, o singular e o inusitado, seguindo desse modo um tipo de explicação histórica amparada na chamada história dos acontecimentos, essencialmente narrativa, marcada pelo ritmo da crônica. Permanecendo muitos anos como diretor do Arquivo Público do Pará, Ernesto Cruz pode pesquisar documentação variada, ora sobre o abastecimento de água e as ruas de Belém, ora sobre os solares e as casas governamentais, ora ainda sobre costumes, práticas sociais e sobre o cotidiano dos habitantes da cidade. Durante muitos anos manteve na imprensa a coluna Fatos e Curiosidades da História do Pará no jornal A Província do Pará. Foi presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Pará e da Academia Paraense de Letras e membro do Conselho Estadual de Cultura. Ernesto Cruz faleceu em Belém no dia 16 de maio de 1976.

Daguerreótipo #16: o Cemitério de Nossa Senhora da Soledade*

Até princípios do século XIX, não existia em Belém, um cemitério público.
É o que se depreende da Carta Régia datada de 14 de janeiro de 1801, autorizando D. Francisco de Sousa Coutinho, governador do Pará e Rio Negro, a construir um ou mais cemitérios - "onde hajão de ser sepultados, sem excepção, tôdas as Pessoas que falecerem".
Contudo, a determinação real não foi cumprida. Os nobres da terra continuaram a ser enterrados, nas igrejas, onde ainda existem lapides indicativas, enquanto os escravos, os condenados à morte, os acatólicos e os excomungados, no dizer dos cronistas coevos, eram sepultados numa pequena área do largo da Pólvora [atual Praça da República], entre as ruas "São Vicente de Fora" e "Cruz das Almas", denominadas hoje avenidas Serzedelo Corrêa e rua Arcipreste Manuel Teodoro.
Nesse antigo trecho [do bairro] da Campina funcionou por algum tempo o "Circo Providência", sendo depois aproveitado para a construção do edifício onde esteve instalado o jornal "A PROVÍNCIA DO PARÁ", de propriedade do famoso político Antônio José de Lemos. Incendiado mais tarde, em consequência de um motim popular, foi reconstruído, servindo atualmente de sede do Instituto Paraense de Educação e Academia Paraense de Letras.
Aspecto da capela do Cemitério da Soledade, em fotografia de Augusto Fidanza, c. 1890. Acervo Biblioteca Nacional.
Depois desse cemitério, sujeito à toda sorte de profanação, tal o abandono em que vivia, existiu um outro, nas mesmas condições do primeiro, sem cercado e sem capela, chamado "Cemitério Municipal", encravado na rua de São Vicente de Fora, entre as estradas da Constituição e da Vala, chamadas hoje de Gentil Bittencourt e Conselheiro Furtado, fazendo fundo com a travessa "Chafariz do Bispo", atual Dr. Morais. Fora este esteve na cogitação da Câmara, a abertura de outro na estrada de São José, nas proximidades do Convento, onde hoje é o Presídio. Depois de construído o muro, foi o terreno julgado impróprio, e abandonado logo depois.
No ano de 1850, chegavam ao porto de Belém, com procedência de Recife, a barca dinamarquesa "Pollux" e a charrua brasileira "Pernambucana", trazendo a bordo doentes atacados de febre amarela. Rapidamente o mal alastrou-se. Apesar das providências sanitárias tomadas pelo governo, 12.000 pessoas foram atacadas pela peste. Este número representava, na época, um terço da população da capital. Todos os recursos foram mobilizados, não só para debelar o fragelo, como para socorrer os doentes. Cenas impressionantes ocorreram nesse período calamitoso.
O presidente da Província, conselheiro Jerônimo Francisco Coelho, numa das páginas do seu Relatório, datado de 15 de agosto daquele ano, escreveu a propósito, as seguintes linhas:

"Muitos actos de caridade e de devoção entre si praticaram durante a crise os habitantes desta capital. A muitos indivíduos, a longo tempo inimizados, a compaixão e a piedade fez apagar em seus peitos os sentimentos de ódio, esqueceram antigas ofensas, e se congraçaram no leito da dôr; e tudo faz honra a seus sentimentos de philantropia, humanidade e cavalheirismo".

Em pouco menos de seis meses, a febre amarela devastou 506 vidas.
O problema do cemitério público que de há muito vinha agitando os círculos social e administrativo teve, em consequência, solucção imediata. O presidente Jerônimo Coelho ao mesmo tempo que proibia de maneira categórica, os enterramentos nas igrejas, mandava cercar e destocar o terreno do antigo "Cemitério Municipal" à rua São Vicente de Fora, que consistia, segundo as expressões do próprio conselheiro, "apenas no terreno desprezado, aberto e expôsto às profanações, onde somente se sepultavam os escravos, e algum miserável ou desvalido". Cercado o terreno e construída uma capela com a evocação de "Nossa Senhora da Soledade", o governo promoveu a inauguração do cemiério a 8 de janeiro de 1850. A benção da capela, que ainda hoje subsiste, foi dada solenemente no domingo, dia 7 de julho seguinte, pelo vigário da Freguesia da Trindade, padre Manoel Vasques da Cunha Pinto. O encarregado da construção foi o capitão Joaquim Vitorino de Sousa Cabral, cujos restos mortais repousam em artístico mausoléu ereto na área do Senhor Santo Cristo, a cuja Ordem pertencia. Data dessa época, o ofício que o presidente Jerônimo Coelho endereçou à Câmara, recomendando que não permitisse inscrições mortuárias ou epitáfios sobre as sepulturas, cujos "termos não fossem convenientes e próprios daquele estabelecimento religioso".
As obras de construção do cemitério de "Nossa Senhora da Soledade" foram orçadas em oito contos de réis, tendo o governo provincial dispendido apenas seiscentos mil réis, sendo o restante pago com donativos particulares.
O presidente Jerônimo Coelho encontrou, de início, forte oposição, não só do clero como de pessoas gradas da cidade que desejavam o restabelecimento do costume dos enterramentos nas igrejas. Eram invocados "os usos imemorais e praticas da veneranda antiguidade". Porém, a todas as reclamações fez-se surdo o conselheiro. A 25 de março de 1850, foi aprovado o Regulamento da Soledade, alterado pela Resolução n. 181 de 9 de dezembro do mesmo ano. Entre os dispositivos dessa Resolução figurava a obrigatoriedade do enterramento no cemitério, de todas as pessoas falecidas na cidade de Belém; mantida na cidade e proibição dos sepultamentos no interior das igrejas ou nos adros das mesmas, ou em cemitério a eles anexos. A infração era punida com a multa de quarenta mil réis e 30 dias de prisão.
Álbum de Belém – Antônio Lemos. Paris: Philippe Renouard, 1902.
O terreno do cemitério ficou dividido em quartéis, destinados para os monumentos particulares, para catacumbas, para sepulturas de pessoas livres e para escravos.
Às irmandades, corporações de Ordens Terceiras e religiosas, ficava assegurado o direito de comprar separada ou associadamente o terreno preciso para o sepultamento de seus componentes.
Custava cinco mil réis por braça quadrada, o terreno adquirido pelas associações religiosas, Irmandades e Ordens, sendo obrigatória a construção da grade de madeira e ferro. O Regulamento frizava, porém, que a Irmandade Militar do Santo Cristo pagaria, somente dois mil réis por braça quadrada, "em atenção ao valioso serviço que tem prestado às praças de linhas para a construção do cemitério". Para que a Soledade ficasse isolada pelas quatro faces, a Câmara Municipal comprou de Martinho de Freitas Noronha, 6 braças de terreno que este possuía contíguo ao lado norte. Nos quatro ângulos do campo, foram demarcadas as áreas para as Irmandades da "Santa Casa", da "Ordem Terceira do Carmo", da Militar do "Santo Cristo" e da "Ordem Terceira de São Francisco da Penitência". Em dezembro de 1850, estando a província sob a administração do presidente Fausto Augusto d' Aguiar, passou a Soledade ao domínio da Santa Casa, com a obrigação desta pagar à Câmara de Belém, o fôro anual de 100 réis por braça de frente do terreno. O acabamento do cemitério ficaria por conta da Misericórdia, aplicado nas obras, o legado que lhe deixara o cidadão Vicente Antônio de Miranda, um dos benfeitores daquela instituição.
E assim foi feito.  
 
* In: CRUZ, Ernesto. Procissão dos Séculos: vultos e episódios da história do Pará. Belém: Imprensa Oficial, 1952, pp. 177-179.

Ernesto Horácio da Cruz nasceu em Belém no dia 20 de novembro de 1898. Seu pai, José Antônio da Cruz, imigrou de Santana do Livramento (Rio Grande do Sul) ao Pará em busca das oportunidades surgidas com o chamado boom da borracha. José da Cruz participou ativamente da política local, na época dominada por Antônio Lemos e Lauro Sodré. Laurista convicto, José levava Ernesto ainda criança aos violentos comícios da época, quando freqüentemente se envolvia na pancadaria que marcava o final de cada um. Após concluir seus estudos, Ernesto ingressou na Escola de Agronomia do Pará para cursar Veterinária, curso que abandonou em 1922 a fim de se alistar no Exército. Servia no 26º Batalhão de Caçadores quando aderiu à Revolução de 1924. Com o fracasso do movimento foi preso, mas anistiado por Getúlio Vargas em 1930. Decidiu não retomar sua carreira militar a fim de se dedicar à sua grande paixão: a história do Pará, sobre a qual deixou uma importante produção historiográfica. Autodidata, Ernesto Cruz pautou sua obra por uma narrativa mais afastada da história política, destacando o pitoresco, o singular e o inusitado, seguindo desse modo um tipo de explicação histórica amparada na chamada história dos acontecimentos, essencialmente narrativa, marcada pelo ritmo da crônica. Permanecendo muitos anos como diretor do Arquivo Público do Pará, Ernesto Cruz pode pesquisar documentação variada, ora sobre o abastecimento de água e as ruas de Belém, ora sobre os solares e as casas governamentais, ora ainda sobre costumes, práticas sociais e sobre o cotidiano dos habitantes da cidade. Durante muitos anos manteve na imprensa a coluna Fatos e Curiosidades da História do Pará no jornal A Província do Pará. Foi presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Pará e da Academia Paraense de Letras e membro do Conselho Estadual de Cultura. Ernesto Cruz faleceu em Belém no dia 16 de maio de 1976.