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Tuesday, December 31, 2013

Tuesday, December 24, 2013

Giotto (1267-1337). Natività (detalhe). c. 1303-1306, afresco, Capella degli Scrovegni, Pádua.
(José é o sujeito sentado, pensando na vida, entre o burro e as ovelhas).
No Natal garantem-lhe um lugar. É quando ele assume seu posto no presépio, junto com a mulher, o menino, o burro, a vaca, os pastores e os misteriosos personagens chamados "reis magos". É um dos poucos papéis que lhe atribuem. A rigor, um de apenas dois papéis – o outro é o de comandar a fuga da família para o Egito. Depois ele desaparece dessa história, talvez a mais conhecida do mundo, sem deixar rastro. Não avisam se morreu ou se foi embora. Ele é produto de dois roteiristas desatentos que, mal nos dão conta de sua existência, mudam de assunto e se esquecem dele sem remédio.
Estamos falando de José, esposo de Maria, mãe de Jesus – um estranho personagem, que se imagina solitário e taciturno, talvez triste, algo desamparado, mas cumpridor. Os dois roteiristas desatentos são os evangelistas Mateus e Lucas, os únicos a tratar da infância de Jesus. Mateus ainda lhe dedica um pouco mais de cuidado, e descreve seu incômodo ao saber que a mulher, que nunca tocara, estava grávida. É o melhor momento de José, o mais humano, o travo do marido traído a amargar-lhe a garganta – e a doer-lhe na testa. Estava ele ruminando sua infelicidade e o troco que iria dar a Maria – repudiá-la, ainda que discretamente, sem expô-la à execração pública – quando lhe aparece, em sonho, o Anjo do Senhor e informa que a gravidez era obra do Espírito Santo. Ah, bom, se é assim... José conforma-se a seu destino de marido de conveniência e pai de mentira.
Grande coisa, diriam os mais céticos. Contando com a intimidade do Anjo do Senhor e as privilegiadas informações que este lhe sussurrava em sonho, quem ousaria agir diferentemente? Não nos deixemos corromper. O fato é que José era bom. O melhor dos homens. É possível supô-lo dia após dia em sua oficina de carpinteiro, silencioso, modesto, enquanto no filho despontavam excêntricos dotes e a mulher resplandecia no prestígio sem paralelo de ter dado à luz sendo virgem. Nos primeiros 1 000 anos do cristianismo, José não mereceu homenagens da Igreja Católica. Só em 1129 surge a primeira igreja a ele dedicada – em Bolonha, na Itália. Na famosa Legenda Áurea, um repositório de vidas de santos escrito por Jacopo de Varazze no século XIII, José nem foi incluído. Seu culto só começa de verdade no século XV, graças às pregações de São Bernardino de Siena, Jean de Gerson e outros. Nesse mesmo século o papa Sisto IV (1471-1484) finalmente o encaixa no calendário romano, reservando-lhe a data de 19 de março.
José é desses personagens concebidos para resolver certos problemas no enredo. Logo na abertura do Evangelho de Mateus, ele resolve o primeiro, o de estabelecer uma conexão entre Jesus e o rei Davi. Mateus apresenta uma genealogia que começa com Abrão, chega a Davi, e de Davi, 27 gerações depois, deságua em José. Cumpria-se assim a profecia de que o Messias nasceria no tronco de Davi, aparentemente tão necessária para convencer os incréus que para esse efeito o evangelista se esquece de que José não era um pai de verdade. Outro problema que ele ajuda a resolver é o das várias menções, no Novo Testamento, aos "irmãos de Jesus". Como a Igreja fazia questão de preservar a virgindade de Maria, mesmo depois do parto, surgiu a solução de atribuir os tais irmãos a um casamento anterior de José. Esta tese concorre com outra, mais favorecida pela Igreja Católica, segundo a qual, quando nos Evangelhos está escrito "irmãos", deve-se ler "primos".
Sobretudo, José resolve o problema de completar uma família em torno de Jesus. Esta a sua grande função no presépio: a de celebrar as virtudes da família nuclear, tão prestigiosa, no seu caso, que passa (e isso acontece na mesma época em que começa a ser cultuado) a se chamar de "sagrada". Não menos de acordo com as realidades da vida é a família da mãe sozinha, e isso não só no tempo de Jesus como em todos os outros, o nosso inclusive. No Brasil, a cada quatro famílias, uma tem a mulher no comando. Mas um marido foi julgado necessário, mesmo que a mulher prescindisse de seus préstimos para gerar filhos, e lá foi José, obsequioso como era de sua natureza, assumir o encargo, ainda que intimamente talvez mortificado, ferido em seus brios de varão e de macho. Assim que se cumprem os relatos da infância de Jesus, ele desaparece de cena. Teria agora abandonado a família, assim como tantos pais? Prefere-se, em seu favor, imaginar que morreu. E, se morreu, babau. Morreu tão completamente que os evangelistas não se deram ao trabalho de noticiar-lhe a morte.
José é, por excelência, aquilo que no teatro e no cinema se chama de ator coadjuvante. Sua função é criar condições para que os outros brilhem. É uma função que exige nobreza de sentimentos, essenciais que lhe são a renúncia e o sacrifício. Pensemos em José, neste Natal, quieto em seu canto, rústico, singelo, trancafiado em sua solidão e seu sacrifício, talvez também em sua tristeza. Por uma vez, pensemos em sua sorte, ao contemplar as figuras do presépio.

* Roberto Pompeu de Toledo. Revista Veja, n. 1936, 21 de dezembro de 2005.

Um certo José: pensemos neste Natal em sua figura quieta, singela, trancafiada em sua solidão e, talvez, em sua tristeza*

Giotto (1267-1337). Natività (detalhe). c. 1303-1306, afresco, Capella degli Scrovegni, Pádua.
(José é o sujeito sentado, pensando na vida, entre o burro e as ovelhas).
No Natal garantem-lhe um lugar. É quando ele assume seu posto no presépio, junto com a mulher, o menino, o burro, a vaca, os pastores e os misteriosos personagens chamados "reis magos". É um dos poucos papéis que lhe atribuem. A rigor, um de apenas dois papéis – o outro é o de comandar a fuga da família para o Egito. Depois ele desaparece dessa história, talvez a mais conhecida do mundo, sem deixar rastro. Não avisam se morreu ou se foi embora. Ele é produto de dois roteiristas desatentos que, mal nos dão conta de sua existência, mudam de assunto e se esquecem dele sem remédio.
Estamos falando de José, esposo de Maria, mãe de Jesus – um estranho personagem, que se imagina solitário e taciturno, talvez triste, algo desamparado, mas cumpridor. Os dois roteiristas desatentos são os evangelistas Mateus e Lucas, os únicos a tratar da infância de Jesus. Mateus ainda lhe dedica um pouco mais de cuidado, e descreve seu incômodo ao saber que a mulher, que nunca tocara, estava grávida. É o melhor momento de José, o mais humano, o travo do marido traído a amargar-lhe a garganta – e a doer-lhe na testa. Estava ele ruminando sua infelicidade e o troco que iria dar a Maria – repudiá-la, ainda que discretamente, sem expô-la à execração pública – quando lhe aparece, em sonho, o Anjo do Senhor e informa que a gravidez era obra do Espírito Santo. Ah, bom, se é assim... José conforma-se a seu destino de marido de conveniência e pai de mentira.
Grande coisa, diriam os mais céticos. Contando com a intimidade do Anjo do Senhor e as privilegiadas informações que este lhe sussurrava em sonho, quem ousaria agir diferentemente? Não nos deixemos corromper. O fato é que José era bom. O melhor dos homens. É possível supô-lo dia após dia em sua oficina de carpinteiro, silencioso, modesto, enquanto no filho despontavam excêntricos dotes e a mulher resplandecia no prestígio sem paralelo de ter dado à luz sendo virgem. Nos primeiros 1 000 anos do cristianismo, José não mereceu homenagens da Igreja Católica. Só em 1129 surge a primeira igreja a ele dedicada – em Bolonha, na Itália. Na famosa Legenda Áurea, um repositório de vidas de santos escrito por Jacopo de Varazze no século XIII, José nem foi incluído. Seu culto só começa de verdade no século XV, graças às pregações de São Bernardino de Siena, Jean de Gerson e outros. Nesse mesmo século o papa Sisto IV (1471-1484) finalmente o encaixa no calendário romano, reservando-lhe a data de 19 de março.
José é desses personagens concebidos para resolver certos problemas no enredo. Logo na abertura do Evangelho de Mateus, ele resolve o primeiro, o de estabelecer uma conexão entre Jesus e o rei Davi. Mateus apresenta uma genealogia que começa com Abrão, chega a Davi, e de Davi, 27 gerações depois, deságua em José. Cumpria-se assim a profecia de que o Messias nasceria no tronco de Davi, aparentemente tão necessária para convencer os incréus que para esse efeito o evangelista se esquece de que José não era um pai de verdade. Outro problema que ele ajuda a resolver é o das várias menções, no Novo Testamento, aos "irmãos de Jesus". Como a Igreja fazia questão de preservar a virgindade de Maria, mesmo depois do parto, surgiu a solução de atribuir os tais irmãos a um casamento anterior de José. Esta tese concorre com outra, mais favorecida pela Igreja Católica, segundo a qual, quando nos Evangelhos está escrito "irmãos", deve-se ler "primos".
Sobretudo, José resolve o problema de completar uma família em torno de Jesus. Esta a sua grande função no presépio: a de celebrar as virtudes da família nuclear, tão prestigiosa, no seu caso, que passa (e isso acontece na mesma época em que começa a ser cultuado) a se chamar de "sagrada". Não menos de acordo com as realidades da vida é a família da mãe sozinha, e isso não só no tempo de Jesus como em todos os outros, o nosso inclusive. No Brasil, a cada quatro famílias, uma tem a mulher no comando. Mas um marido foi julgado necessário, mesmo que a mulher prescindisse de seus préstimos para gerar filhos, e lá foi José, obsequioso como era de sua natureza, assumir o encargo, ainda que intimamente talvez mortificado, ferido em seus brios de varão e de macho. Assim que se cumprem os relatos da infância de Jesus, ele desaparece de cena. Teria agora abandonado a família, assim como tantos pais? Prefere-se, em seu favor, imaginar que morreu. E, se morreu, babau. Morreu tão completamente que os evangelistas não se deram ao trabalho de noticiar-lhe a morte.
José é, por excelência, aquilo que no teatro e no cinema se chama de ator coadjuvante. Sua função é criar condições para que os outros brilhem. É uma função que exige nobreza de sentimentos, essenciais que lhe são a renúncia e o sacrifício. Pensemos em José, neste Natal, quieto em seu canto, rústico, singelo, trancafiado em sua solidão e seu sacrifício, talvez também em sua tristeza. Por uma vez, pensemos em sua sorte, ao contemplar as figuras do presépio.

* Roberto Pompeu de Toledo. Revista Veja, n. 1936, 21 de dezembro de 2005.

Friday, November 15, 2013

A estátua equestre do marechal Deodoro, no Centro do Rio de Janeiro, dá um ar triunfal à República de 15 de Novembro. Não é uma cena violenta: o experiente militar não empunha espada nem está em batalha. Imponente, acena para o povo com seu quepe. A base da estátua, verdadeiro colosso, cria uma imagem sólida e perene para o regime. A consolidação da República, entretanto, se deu de outra maneira.
Nossos dois primeiros presidentes foram militares. E nenhum dos dois era republicano, em qualquer sentido que se possa atribuir ao termo. O alagoano Manuel Deodoro da Fonseca (1827-1892), veterano da Guerra do Paraguai, monarquista convicto e amigo do imperador, não pensava em derrubar o regime – muito menos em ser presidente. Tratava-se, naquela ocasião, de derrubar o gabinete liberal do visconde de Ouro Preto, durante o contexto da chamada Questão Militar: republicanos que se aproximaram de Deodoro espalharam a falsa notícia de que o ministro ordenara sua prisão. Mas a decisão do líder militar de extinguir a monarquia decorreu da informação de que outro político liberal, o gaúcho Gaspar da Silveira Martins, seu inimigo pessoal (por um típico caso de rabo de saia), assumiria o novo gabinete. Assim, por motivos nada republicanos, decretou-se a República.
O primeiro desafio, portanto, foi fazer com que ela vingasse. A família imperial foi banida (na calada da noite), uma Constituição redigida e promulgada (em 1891) e, formalmente, instaurada uma descentralização administrativa. Apenas formalmente: embora a Constituição assegurasse o federalismo, os governos locais não podiam entrar em contradição com o governo central. A República nasceu, na prática, sob ditadura militar. Que o digam os que esboçaram oposição durante o segundo período presidencial (1891-1894), sob a mão de ferro do marechal Floriano Peixoto, alagoano como Deodoro: censura à imprensa, perseguição política, prisões, execuções.
Campos Sales
Os dois primeiros presidentes civis, Prudente de Moraes (1894-1898) e Campos Sales (1898-1902), eram republicanos da velha estirpe. Seus governos foram momentos de distensão política, embora a força excessiva do Estado contra parcelas da população não tenha deixado de ser usada, como no trágico episódio de Canudos (1896-1897). Ambos integraram o Partido Republicano durante o Império, apoiaram a luta abolicionista e compuseram a Constituinte que produziu a primeira Carta do novo regime. Havia décadas se empenhavam em reformas sociais e políticas para o país. Faziam parte da “Geração de 1870”, um grupo de homens de letras e da política comprometidos com valores à época chamados de “civilizados”: fim da escravidão, aumento da participação política da população, critérios de mérito para o acesso aos principais postos do Estado. Homens como Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, André Rebouças e Quintino Bocaiúva, que defendiam a ruptura com a tradição colonial e reivindicavam um governo que acreditavam ser científico, tendo como exemplos a Inglaterra e a França – uma monarquia e uma república.
Prudente de Moraes fez a primeira tentativa séria de instaurar um regime de fato republicano. Para começar, ao contrário dos presidentes anteriores, foi eleito. Comparado com o estilo viril de Floriano, sofria com trocadilhos infames: diziam que era prudente demais. Pressionado, acabou despejando chumbo grosso sobre os seguidores de Antônio Conselheiro.
Campos Sales, paulista como ele, se dedicou à recuperação econômica. Nos anos anteriores, vivera-se uma verdadeira economia de guerra, agravada pela crise do Encilhamento, em parte resultado da polêmica gestão de Rui Barbosa como nosso primeiro ministro da Fazenda republicano.
Nesses primeiros anos do regime, dois outros personagens trabalhavam longe do palco principal: Francisco de Paula Rodrigues Alves (1848-1919) e Afonso Penna (1847-1909).
Prudente de Moraes
O paulistano Rodrigues Alves era filho de fazendeiro do interior. Estudou no Rio de Janeiro, no Colégio Pedro II, e formou-se em direito pela Faculdade do Largo de São Francisco, em São Paulo, em 1870. Sua vida política começou no ano seguinte, mesmo ano da Lei do Ventre Livre, quando os valores ligados a uma sociedade mais “civilizada” ganhavam espaço nas discussões públicas – incentivadas, inclusive, pelo imperador. Eleito deputado provincial em São Paulo, logo iniciou a carreira no plano nacional, sendo eleito para o cargo de deputado geral (o atual deputado federal) em 1884. Três anos depois, assumiu a presidência de São Paulo (equivalente a governador). O cenário na província era catastrófico: epidemia de varíola, agitação anarquista e fuga em massa de escravos. Rodrigues Alves elegeu um único alvo, e em cinco meses controlou a epidemia.
De volta à Câmara dos Deputados, votou a favor da Lei Áurea em 1888, e logo depois foi feito conselheiro do Império. Mesmo fiel à monarquia, continuou na arena política após o golpe de 1889. No governo de Floriano Peixoto, foi praticamente intimado a assumir o Ministério da Fazenda. Democrata, ficou em situação delicada: como defendia abertamente a realização de eleições presidenciais, passou a ser ignorado pelo Marechal de Ferro nas reuniões ministeriais.
Voltou à pasta da Fazenda sob Prudente de Moraes, em 1894. Ali começou, de fato, uma obra de estruturação do novo regime. Em primeiro lugar, a economia. Costurou acordos internacionais e obteve recursos dentro e fora do país. Além disso, preparou um acordo financeiro que seria posto em prática no governo seguinte – o chamadofunding-loan, que garantiu o pagamento de empréstimos anteriores.
Seu período presidencial se iniciou em 1902, com uma novidade: foi o primeiro presidente a trazer um programa de governo, que incluía manter o rigor nas contas públicas, combater doenças epidêmicas e “civilizar” o Brasil. O primeiro passo foi simples, embora não tenha fincado raízes em nossas práticas políticas: escolheu seus ministros por critério de competência. Entre os colaboradores estavam o barão do Rio Branco, diplomata que tinha verdadeira aversão pela República mas ficaria no cargo de ministro do Exterior até sua morte, em 1912. Outro velho simpatizante do regime deposto, Joaquim Nabuco, foi transformado em nosso primeiro embaixador nos Estados Unidos, função desempenhada também até o fim da vida, em 1910. A atuação dos dois diplomatas consolidou as fronteiras do país e deu voz ao regime republicano na nova ordem mundial.
O Rio de Janeiro, então capital federal, era pouco mais do que uma cidade colonial portuguesa, sem estrutura para abrigar a enorme população, escoar produtos e servir aos negócios de Estado. Nos quatro anos de Rodrigues Alves e nos de seu sucessor, o mineiro Afonso Penna (1906-1909), a cidade virou um canteiro de obras: avenidas foram abertas, casas populares construídas, um porto moderno criado. Para comandar a empreitada foi nomeado prefeito o engenheiro Francisco Pereira Passos, que acabou levando os louros pela remodelação.
A cidade também era o paraíso das epidemias. Contra este mal, Rodrigues Alves chamou o sanitarista Oswaldo Cruz. Sua ação enérgica, associada a demandas reprimidas da população, acabou desencadeando a Revolta da Vacina. Mas os resultados falam por si: em 1902, mil pessoas morreram de varíola. Em 1904, o número de óbitos foi 53.
Rodrigues Alves e Afonso Penna eram explicitamente identificados com o regime imperial, o que causava mal-estar entre os republicanos “históricos”. No caso do paulista, até a aparência remetia à monarquia: usava um antiquado jaquetão preto e cartola, típicos dos tempos do imperador. Retomando um hábito do antigo governante, passava as temporadas de verão em Petrópolis. A atuação de ambos deu à República o que ela não possuía entre nós: uma tradição. A postura conservadora e serena desses homens, em dia com preceitos republicanos de respeito à coisa pública, consolidou a imagem de um regime dotado de instituições. Monarquistas por formação, tiveram papel importante na construção de um aparato estatal republicano, sem apelar para a exceção personalista – diferentemente de muitos dos nossos líderes. Como Getulio Vargas, que inaugurou a bela estátua do marechal Deodoro em 15 de novembro de 1937 – cinco dias depois de instaurada a ditadura do Estado Novo.

Daguerreótipo #24: Herança do Império*

A estátua equestre do marechal Deodoro, no Centro do Rio de Janeiro, dá um ar triunfal à República de 15 de Novembro. Não é uma cena violenta: o experiente militar não empunha espada nem está em batalha. Imponente, acena para o povo com seu quepe. A base da estátua, verdadeiro colosso, cria uma imagem sólida e perene para o regime. A consolidação da República, entretanto, se deu de outra maneira.
Nossos dois primeiros presidentes foram militares. E nenhum dos dois era republicano, em qualquer sentido que se possa atribuir ao termo. O alagoano Manuel Deodoro da Fonseca (1827-1892), veterano da Guerra do Paraguai, monarquista convicto e amigo do imperador, não pensava em derrubar o regime – muito menos em ser presidente. Tratava-se, naquela ocasião, de derrubar o gabinete liberal do visconde de Ouro Preto, durante o contexto da chamada Questão Militar: republicanos que se aproximaram de Deodoro espalharam a falsa notícia de que o ministro ordenara sua prisão. Mas a decisão do líder militar de extinguir a monarquia decorreu da informação de que outro político liberal, o gaúcho Gaspar da Silveira Martins, seu inimigo pessoal (por um típico caso de rabo de saia), assumiria o novo gabinete. Assim, por motivos nada republicanos, decretou-se a República.
O primeiro desafio, portanto, foi fazer com que ela vingasse. A família imperial foi banida (na calada da noite), uma Constituição redigida e promulgada (em 1891) e, formalmente, instaurada uma descentralização administrativa. Apenas formalmente: embora a Constituição assegurasse o federalismo, os governos locais não podiam entrar em contradição com o governo central. A República nasceu, na prática, sob ditadura militar. Que o digam os que esboçaram oposição durante o segundo período presidencial (1891-1894), sob a mão de ferro do marechal Floriano Peixoto, alagoano como Deodoro: censura à imprensa, perseguição política, prisões, execuções.
Campos Sales
Os dois primeiros presidentes civis, Prudente de Moraes (1894-1898) e Campos Sales (1898-1902), eram republicanos da velha estirpe. Seus governos foram momentos de distensão política, embora a força excessiva do Estado contra parcelas da população não tenha deixado de ser usada, como no trágico episódio de Canudos (1896-1897). Ambos integraram o Partido Republicano durante o Império, apoiaram a luta abolicionista e compuseram a Constituinte que produziu a primeira Carta do novo regime. Havia décadas se empenhavam em reformas sociais e políticas para o país. Faziam parte da “Geração de 1870”, um grupo de homens de letras e da política comprometidos com valores à época chamados de “civilizados”: fim da escravidão, aumento da participação política da população, critérios de mérito para o acesso aos principais postos do Estado. Homens como Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, André Rebouças e Quintino Bocaiúva, que defendiam a ruptura com a tradição colonial e reivindicavam um governo que acreditavam ser científico, tendo como exemplos a Inglaterra e a França – uma monarquia e uma república.
Prudente de Moraes fez a primeira tentativa séria de instaurar um regime de fato republicano. Para começar, ao contrário dos presidentes anteriores, foi eleito. Comparado com o estilo viril de Floriano, sofria com trocadilhos infames: diziam que era prudente demais. Pressionado, acabou despejando chumbo grosso sobre os seguidores de Antônio Conselheiro.
Campos Sales, paulista como ele, se dedicou à recuperação econômica. Nos anos anteriores, vivera-se uma verdadeira economia de guerra, agravada pela crise do Encilhamento, em parte resultado da polêmica gestão de Rui Barbosa como nosso primeiro ministro da Fazenda republicano.
Nesses primeiros anos do regime, dois outros personagens trabalhavam longe do palco principal: Francisco de Paula Rodrigues Alves (1848-1919) e Afonso Penna (1847-1909).
Prudente de Moraes
O paulistano Rodrigues Alves era filho de fazendeiro do interior. Estudou no Rio de Janeiro, no Colégio Pedro II, e formou-se em direito pela Faculdade do Largo de São Francisco, em São Paulo, em 1870. Sua vida política começou no ano seguinte, mesmo ano da Lei do Ventre Livre, quando os valores ligados a uma sociedade mais “civilizada” ganhavam espaço nas discussões públicas – incentivadas, inclusive, pelo imperador. Eleito deputado provincial em São Paulo, logo iniciou a carreira no plano nacional, sendo eleito para o cargo de deputado geral (o atual deputado federal) em 1884. Três anos depois, assumiu a presidência de São Paulo (equivalente a governador). O cenário na província era catastrófico: epidemia de varíola, agitação anarquista e fuga em massa de escravos. Rodrigues Alves elegeu um único alvo, e em cinco meses controlou a epidemia.
De volta à Câmara dos Deputados, votou a favor da Lei Áurea em 1888, e logo depois foi feito conselheiro do Império. Mesmo fiel à monarquia, continuou na arena política após o golpe de 1889. No governo de Floriano Peixoto, foi praticamente intimado a assumir o Ministério da Fazenda. Democrata, ficou em situação delicada: como defendia abertamente a realização de eleições presidenciais, passou a ser ignorado pelo Marechal de Ferro nas reuniões ministeriais.
Voltou à pasta da Fazenda sob Prudente de Moraes, em 1894. Ali começou, de fato, uma obra de estruturação do novo regime. Em primeiro lugar, a economia. Costurou acordos internacionais e obteve recursos dentro e fora do país. Além disso, preparou um acordo financeiro que seria posto em prática no governo seguinte – o chamadofunding-loan, que garantiu o pagamento de empréstimos anteriores.
Seu período presidencial se iniciou em 1902, com uma novidade: foi o primeiro presidente a trazer um programa de governo, que incluía manter o rigor nas contas públicas, combater doenças epidêmicas e “civilizar” o Brasil. O primeiro passo foi simples, embora não tenha fincado raízes em nossas práticas políticas: escolheu seus ministros por critério de competência. Entre os colaboradores estavam o barão do Rio Branco, diplomata que tinha verdadeira aversão pela República mas ficaria no cargo de ministro do Exterior até sua morte, em 1912. Outro velho simpatizante do regime deposto, Joaquim Nabuco, foi transformado em nosso primeiro embaixador nos Estados Unidos, função desempenhada também até o fim da vida, em 1910. A atuação dos dois diplomatas consolidou as fronteiras do país e deu voz ao regime republicano na nova ordem mundial.
O Rio de Janeiro, então capital federal, era pouco mais do que uma cidade colonial portuguesa, sem estrutura para abrigar a enorme população, escoar produtos e servir aos negócios de Estado. Nos quatro anos de Rodrigues Alves e nos de seu sucessor, o mineiro Afonso Penna (1906-1909), a cidade virou um canteiro de obras: avenidas foram abertas, casas populares construídas, um porto moderno criado. Para comandar a empreitada foi nomeado prefeito o engenheiro Francisco Pereira Passos, que acabou levando os louros pela remodelação.
A cidade também era o paraíso das epidemias. Contra este mal, Rodrigues Alves chamou o sanitarista Oswaldo Cruz. Sua ação enérgica, associada a demandas reprimidas da população, acabou desencadeando a Revolta da Vacina. Mas os resultados falam por si: em 1902, mil pessoas morreram de varíola. Em 1904, o número de óbitos foi 53.
Rodrigues Alves e Afonso Penna eram explicitamente identificados com o regime imperial, o que causava mal-estar entre os republicanos “históricos”. No caso do paulista, até a aparência remetia à monarquia: usava um antiquado jaquetão preto e cartola, típicos dos tempos do imperador. Retomando um hábito do antigo governante, passava as temporadas de verão em Petrópolis. A atuação de ambos deu à República o que ela não possuía entre nós: uma tradição. A postura conservadora e serena desses homens, em dia com preceitos republicanos de respeito à coisa pública, consolidou a imagem de um regime dotado de instituições. Monarquistas por formação, tiveram papel importante na construção de um aparato estatal republicano, sem apelar para a exceção personalista – diferentemente de muitos dos nossos líderes. Como Getulio Vargas, que inaugurou a bela estátua do marechal Deodoro em 15 de novembro de 1937 – cinco dias depois de instaurada a ditadura do Estado Novo.

Sunday, October 13, 2013

Saturday, October 12, 2013

Panorama da Belém em que viveu Henry Walter Bates em pintura de Giuseppe Leone Righini.
Antes de deixar o assunto do Pará, onde residi, como já disse, durante 18 meses, é necessário dar uma noção mais minuciosa de vários pontos relacionados com os costumes do povo e a história natural dos arredores, que até agora apenas de leve mencionei. Reservo a notícia sobre o comércio e progresso do Pará em 1859 para o fim desta narrativa.
Giuseppe Leone (Joseph Léon) Righini (c.1820-1884), Panorama of Belém do Pará, Brazil

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Houve, durante as primeiras semanas de nossa estada, muitas festas religiosas, que ocupavam grande parte do tempo e das preocupações do povo. Eram manifestações esplêndidas, com procissões artisticamente arranjadas, percorrendo as ruas, acompanhadas por milhares de pessoas, paradas militares, fogos de artifício e o clamor de músicas militares se juntavam às pompas das cerimônias religiosas nas igrejas. Para os que tinham assistido a cerimônias semelhantes nos países do Sul da Europa, estas nada tinham de notável, exceto realizarem-se no meio dos esplendores de uma natureza tropical; mas para mim elas eram cheias de novidade, e interessantes sobretudo porque me mostravam muito do que era peculiar na maneira do povo. As festas celebram os aniversários dos santos ou os acontecimentos mais importantes da vida de Cristo. Acrescentaram-se a estes, depois da Independência, muitos dias de gala em correlação com os acontecimentos da história nacional brasileira; mas todos têm um caráter semirreligioso. Os dias santos eram tão numerosos e perturbavam tanto o comércio e a indústria em 1852, que o Governo foi obrigado a reduzi-los, obtendo a necessária permissão de Roma para abolir alguns de menor significação. Muitos, dos que tinham sido conservados, estavam diminuindo de importância depois da introdução das estradas de ferro e dos paquetes, dedicando-se mais o povo ao comércio. Quando aí chegamos, porém, estavam em todo o seu esplendor. As festas realizavam-se obedecendo geralmente ao seguinte cerimonial: anualmente elegia-se, na sacristia da igreja, um diretor geral da festa, ou "juiz" e a ele cabia administrar todos os parafernais concernentes à festa para a qual tinha sido feito — imagem do santo, bandeiras, coroas de prata, etc. Ele encarregava algumas pessoas para que visitassem os paroquianos e colhessem esmolas, para fazer face às despesas. Considerava-se que quanto mais se gastasse em velas de cera, fogos de artifícios, músicas e banquetes, maiores seriam as honras prestadas ao santo. Se o juiz era rico, raramente apelava para as esmolas, celebrando a festa à sua custa, subindo as despesas, às vezes, a várias centenas de libras. Cada festa durava nove dias (uma novena) e em muitos casos serviam-se bebidas ao povo todas as noites. Nas cidades menores há baile duas ou três noites durante a novena e no último dia um grande jantar. O padre, naturalmente, tem que ser pago com muita liberalidade, especialmente pelo sermão feito no dia Santo ou na terminação do festival, pois os sermões são um serviço extraordinário no Brasil.
Há muita diferença nos acessórios destes festivais das cidades e vilas do interior e os da capital; mas pouco se trabalha durante a sua realização, e eles contribuem muito para desmoralizar o povo. Percebe-se logo que a religião é, para a maioria dos paraenses, mais um divertimento que um dever. As ideias da maioria evidentemente não vão além da crença de que todos os festejos são feitos, em cada caso, em honra da imagem de madeira posta no altar da igreja. Os imigrantes portugueses sem educação parecem-me ter noções muito falsas da religião. Muitas vezes viajei em companhia desses brilhantes exemplos da civilização europeia. Geralmente carregam consigo, onde quer que vão, uma pequena imagem de algum santo favorito, e quando há tempestade ou qualquer outro perigo, seu primeiro cuidado é correr para o camarote, tomar a imagem e levá-la aos lábios, enquanto balbuciam uma oração pedindo socorro. Os negros e mulatos são, neste particular, muito parecidos com os portugueses, mas eu acho que eles mostram um sentimento de mais pura devoção; e em conversa, sempre observei que mostravam vistas mais racionais em sua religião do que as classes baixas de portugueses. Quanto aos índios, com exceção das famílias mais civilizadas, morando perto das grandes cidades, não demonstravam nenhum sentimento religioso. Eles tem o seu patrono, São Tomé, e celebram seu aniversário de maneira pouco ortodoxa, pois não são muito ciosos em observar todas as formalidades, mas acham que os festejos têm a mesma importância que as cerimônias da igreja. Em alguns dos festivais as mascaradas ocupam grande parte das festas e os índios realmente brilham nas mesmas. Fazem imitações dos animais selvagens, vestem-se para representar a caipora e outras criaturas fabulosas da floresta, e representam os seus papéis com grande habilidade. Quando chega a festa de São Tomé, todos aqueles, que têm índios ao seu serviço, sabem que seus homens vão embriagar-se. O índio, que é geralmente muito tímido, para pedir cachaça se torna então muito animoso; ele pede um garrafão (duas garrafas e meia) e diz que está se embriagando em honra de São Tomé.

Na cidade do Pará, o governo provincial concorre para o aumento do esplendor dos dias santos. As procissões que percorrem as ruas principais têm, em primeiro lugar, a imagem do santo e as de vários outros, pertencentes à mesma igreja, carregadas nos ombros de respeitáveis cidadãos, que voluntariamente se oferecem: às vezes vemos o nosso vizinho, o carpinteiro ou o açougueiro, gemendo sob o peso. O padre e os coadjutores precedem as imagens, com paramentos bordados e protegidos por magníficas umbrelas, ornamento que não é inútil aqui, pois o calor é muito grande, quando o sol não é obscurecido. De cada lado caminha longa fila de homens, com opas vermelhas, cada qual levando um brandão aceso. Atrás vai um regimento de infantaria com a banda de música, e atrás de tudo a multidão: a gente de cor limpamente vestida e conservando uma conduta circunspecta. As mulheres são sempre em grande número, com os bastos cabelos negros enfeitados de jasmins, orquídeas brancas e outras flores tropicais. Vestem-se com os costumados atavios dos dias de festa, com blusas de gaze e saias de seda preta; no pescoço levam colares de contas de ouro que, nas escravas, são de propriedade das senhoras, que gostam de mostrar assim a riqueza.
À noite, quando as festas se passam nas praças em torno das igrejas dos subúrbios, há realmente muita coisa que admirar. Muita particularidade da terra e vida de seus habitantes pode ser então melhor apreciada. A graciosa igreja branca fica brilhantemente iluminada e a música, que não é de tons muito solenes, repercute através das portas e janelas. Grande número de negrotas bizarramente vestidas ficam no caminho que leva às portas da igreja, com tabuleiros de licores, doces e cigarros, que vendem aos que estão do lado de fora. A pouca distância ouve-se o ruído de dados e roletas armadas ao ar livre. Quando a festa tem lugar em noites de luar a cena é maravilhosa para o recém-chegado. Em torno da praça há grupos de altas palmeiras, e mais longe, acima das casas iluminadas, aparecem as copas das mangueiras, perto das estradas suburbanas, donde chega o eterno bulício da vida dos insetos. O suave luar tropical derrama maravilhoso encantamento sobre o conjunto. Os habitantes estão todos nas ruas, com suas melhores roupas. As classes mais elevadas, que vêm gozar da alegria geral, estão sentadas em cadeiras, à porta de casas amigas. Não há uma ruidosa jovialidade mas uma alegria sossegada, que parece sentida por todos, com delicadas regras de cortesia entre todas as classes e cores. Vi um coronel em grande gala, do palácio do Presidente, dirigir-se a um mulato e delicadamente pedir-lhe fogo para acender o charuto. Quando termina a ladainha, tangem os sinos da igreja e uma girândola de foguetes sobe ao ar, tocam as bandas de música e os pares de pessoas de cor começam as danças. As dez horas toca-se o Hino Nacional e todos se dispersam e sossegadamente voltam para casa.
(...) A festa maior e mais imponente era a que se realizava em honra de Nossa Senhora de Nazaré, e que é, segundo penso, privativa do Pará. Como já disse, cai no quarto crescente, em meados da estação seca, isto é, em outubro ou novembro, e dura, como as outras, nove dias. No primeiro dia tem lugar uma enorme procissão, partindo da catedral, para onde a santa foi trazida alguns dias antes, e terminando na capela ou ermida (como chamam), da santa, em Nazaré, a uma distância de mais de duas milhas. Toda a população vem para a rua nessa ocasião. Todos os soldados, tanto de linha, como da Guarda Nacional, tomam parte na procissão, cada batalhão acompanhado por sua banda de música. Acompanham-na também as autoridades civis, com o presidente à frente, bem como as pessoas gradas, inclusive muitos residentes estrangeiros. O bote dos náufragos portugueses é transportado, atrás da santa, nos ombros de oficiais de marinha e marinheiros, e em seguida vêm os outros símbolos dos milagres realizados por Nossa Senhora. A procissão tem início logo que o sol começa a declinar, isto é, mais ou menos às quatro e meia da tarde. Quando se deposita a imagem na capela, considera-se a festa como inaugurada, e a aldeia é, todas as noites, o ponto de reunião da população que procura divertir-se, sendo a parte festiva do programa precedida, naturalmente, por um serviço religioso na capela. O aspecto da praça é então o de uma feira, sem o bom humor e a galhofa de festas semelhantes na Inglaterra, mas também sem a sua algazarra e grosseria. Preparam-se grandes salas para vistas panorâmicas e outros divertimentos onde o público tem entrada grátis. Há todas as noites grande queima de fogos de artifício, tudo obedecendo a um programa publicado da festa.

*In: BATES, Henry Walter. Um naturalista no Rio Amazonas. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1944, pp. 121-127.

Henry Walter Bates nasceu em Leicester, a 8 de fevereiro de 1825. Ansiando pertencer ao seleto grupo da comunidade científica, mesmo impossibilitado de ter formação acadêmica e com recursos limitados, em 1844 associou-se ao também naturalista Alfred Russel Wallace (1823-1913), para, juntos, excursionarem pelos rios Tocantins e Amazonas, em busca de informações sobre a origem das espécies. Durante a expedição, que durou cerca de onze anos, Bates se destacou por ser metódico e dedicado, recolhendo uma coleção de 14.712 espécies, sendo 8.000 desconhecidas. Após retornar à Inglaterra em 1859, teve seu trabalho reconhecido o que lhe permitiu atuar como secretário-assistente da Sociedade Real de Geografia de Londres, colaborador da Linnean Society e da Entomological Society. Bates tornou-se um reconhecido entomólogo, elogiado inclusive por Charles Darwin (1809-1822), que prefaciou a edição original de The Naturalist on the River Amazons, a Record of Adventures, Habits of Animals, Sketches of Brazilian and Indian Life (1863). Darwin tinha motivos para tal, pois a coleção contribuiu decisivamente para o progresso de suas teorias acerca da evolução das espécies. Bates deixou ainda uma importante descrição dos usos e costumes dos locais por onde passou, especialmente Belém, onde residiu por um ano e meio. Ele faleceu em Londres, a 16 de fevereiro de 1892.

Daguerreótipo #21: as festas religiosas de Belém por Henry Walter Bates*

Panorama da Belém em que viveu Henry Walter Bates em pintura de Giuseppe Leone Righini.
Antes de deixar o assunto do Pará, onde residi, como já disse, durante 18 meses, é necessário dar uma noção mais minuciosa de vários pontos relacionados com os costumes do povo e a história natural dos arredores, que até agora apenas de leve mencionei. Reservo a notícia sobre o comércio e progresso do Pará em 1859 para o fim desta narrativa.
Giuseppe Leone (Joseph Léon) Righini (c.1820-1884), Panorama of Belém do Pará, Brazil

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Houve, durante as primeiras semanas de nossa estada, muitas festas religiosas, que ocupavam grande parte do tempo e das preocupações do povo. Eram manifestações esplêndidas, com procissões artisticamente arranjadas, percorrendo as ruas, acompanhadas por milhares de pessoas, paradas militares, fogos de artifício e o clamor de músicas militares se juntavam às pompas das cerimônias religiosas nas igrejas. Para os que tinham assistido a cerimônias semelhantes nos países do Sul da Europa, estas nada tinham de notável, exceto realizarem-se no meio dos esplendores de uma natureza tropical; mas para mim elas eram cheias de novidade, e interessantes sobretudo porque me mostravam muito do que era peculiar na maneira do povo. As festas celebram os aniversários dos santos ou os acontecimentos mais importantes da vida de Cristo. Acrescentaram-se a estes, depois da Independência, muitos dias de gala em correlação com os acontecimentos da história nacional brasileira; mas todos têm um caráter semirreligioso. Os dias santos eram tão numerosos e perturbavam tanto o comércio e a indústria em 1852, que o Governo foi obrigado a reduzi-los, obtendo a necessária permissão de Roma para abolir alguns de menor significação. Muitos, dos que tinham sido conservados, estavam diminuindo de importância depois da introdução das estradas de ferro e dos paquetes, dedicando-se mais o povo ao comércio. Quando aí chegamos, porém, estavam em todo o seu esplendor. As festas realizavam-se obedecendo geralmente ao seguinte cerimonial: anualmente elegia-se, na sacristia da igreja, um diretor geral da festa, ou "juiz" e a ele cabia administrar todos os parafernais concernentes à festa para a qual tinha sido feito — imagem do santo, bandeiras, coroas de prata, etc. Ele encarregava algumas pessoas para que visitassem os paroquianos e colhessem esmolas, para fazer face às despesas. Considerava-se que quanto mais se gastasse em velas de cera, fogos de artifícios, músicas e banquetes, maiores seriam as honras prestadas ao santo. Se o juiz era rico, raramente apelava para as esmolas, celebrando a festa à sua custa, subindo as despesas, às vezes, a várias centenas de libras. Cada festa durava nove dias (uma novena) e em muitos casos serviam-se bebidas ao povo todas as noites. Nas cidades menores há baile duas ou três noites durante a novena e no último dia um grande jantar. O padre, naturalmente, tem que ser pago com muita liberalidade, especialmente pelo sermão feito no dia Santo ou na terminação do festival, pois os sermões são um serviço extraordinário no Brasil.
Há muita diferença nos acessórios destes festivais das cidades e vilas do interior e os da capital; mas pouco se trabalha durante a sua realização, e eles contribuem muito para desmoralizar o povo. Percebe-se logo que a religião é, para a maioria dos paraenses, mais um divertimento que um dever. As ideias da maioria evidentemente não vão além da crença de que todos os festejos são feitos, em cada caso, em honra da imagem de madeira posta no altar da igreja. Os imigrantes portugueses sem educação parecem-me ter noções muito falsas da religião. Muitas vezes viajei em companhia desses brilhantes exemplos da civilização europeia. Geralmente carregam consigo, onde quer que vão, uma pequena imagem de algum santo favorito, e quando há tempestade ou qualquer outro perigo, seu primeiro cuidado é correr para o camarote, tomar a imagem e levá-la aos lábios, enquanto balbuciam uma oração pedindo socorro. Os negros e mulatos são, neste particular, muito parecidos com os portugueses, mas eu acho que eles mostram um sentimento de mais pura devoção; e em conversa, sempre observei que mostravam vistas mais racionais em sua religião do que as classes baixas de portugueses. Quanto aos índios, com exceção das famílias mais civilizadas, morando perto das grandes cidades, não demonstravam nenhum sentimento religioso. Eles tem o seu patrono, São Tomé, e celebram seu aniversário de maneira pouco ortodoxa, pois não são muito ciosos em observar todas as formalidades, mas acham que os festejos têm a mesma importância que as cerimônias da igreja. Em alguns dos festivais as mascaradas ocupam grande parte das festas e os índios realmente brilham nas mesmas. Fazem imitações dos animais selvagens, vestem-se para representar a caipora e outras criaturas fabulosas da floresta, e representam os seus papéis com grande habilidade. Quando chega a festa de São Tomé, todos aqueles, que têm índios ao seu serviço, sabem que seus homens vão embriagar-se. O índio, que é geralmente muito tímido, para pedir cachaça se torna então muito animoso; ele pede um garrafão (duas garrafas e meia) e diz que está se embriagando em honra de São Tomé.

Na cidade do Pará, o governo provincial concorre para o aumento do esplendor dos dias santos. As procissões que percorrem as ruas principais têm, em primeiro lugar, a imagem do santo e as de vários outros, pertencentes à mesma igreja, carregadas nos ombros de respeitáveis cidadãos, que voluntariamente se oferecem: às vezes vemos o nosso vizinho, o carpinteiro ou o açougueiro, gemendo sob o peso. O padre e os coadjutores precedem as imagens, com paramentos bordados e protegidos por magníficas umbrelas, ornamento que não é inútil aqui, pois o calor é muito grande, quando o sol não é obscurecido. De cada lado caminha longa fila de homens, com opas vermelhas, cada qual levando um brandão aceso. Atrás vai um regimento de infantaria com a banda de música, e atrás de tudo a multidão: a gente de cor limpamente vestida e conservando uma conduta circunspecta. As mulheres são sempre em grande número, com os bastos cabelos negros enfeitados de jasmins, orquídeas brancas e outras flores tropicais. Vestem-se com os costumados atavios dos dias de festa, com blusas de gaze e saias de seda preta; no pescoço levam colares de contas de ouro que, nas escravas, são de propriedade das senhoras, que gostam de mostrar assim a riqueza.
À noite, quando as festas se passam nas praças em torno das igrejas dos subúrbios, há realmente muita coisa que admirar. Muita particularidade da terra e vida de seus habitantes pode ser então melhor apreciada. A graciosa igreja branca fica brilhantemente iluminada e a música, que não é de tons muito solenes, repercute através das portas e janelas. Grande número de negrotas bizarramente vestidas ficam no caminho que leva às portas da igreja, com tabuleiros de licores, doces e cigarros, que vendem aos que estão do lado de fora. A pouca distância ouve-se o ruído de dados e roletas armadas ao ar livre. Quando a festa tem lugar em noites de luar a cena é maravilhosa para o recém-chegado. Em torno da praça há grupos de altas palmeiras, e mais longe, acima das casas iluminadas, aparecem as copas das mangueiras, perto das estradas suburbanas, donde chega o eterno bulício da vida dos insetos. O suave luar tropical derrama maravilhoso encantamento sobre o conjunto. Os habitantes estão todos nas ruas, com suas melhores roupas. As classes mais elevadas, que vêm gozar da alegria geral, estão sentadas em cadeiras, à porta de casas amigas. Não há uma ruidosa jovialidade mas uma alegria sossegada, que parece sentida por todos, com delicadas regras de cortesia entre todas as classes e cores. Vi um coronel em grande gala, do palácio do Presidente, dirigir-se a um mulato e delicadamente pedir-lhe fogo para acender o charuto. Quando termina a ladainha, tangem os sinos da igreja e uma girândola de foguetes sobe ao ar, tocam as bandas de música e os pares de pessoas de cor começam as danças. As dez horas toca-se o Hino Nacional e todos se dispersam e sossegadamente voltam para casa.
(...) A festa maior e mais imponente era a que se realizava em honra de Nossa Senhora de Nazaré, e que é, segundo penso, privativa do Pará. Como já disse, cai no quarto crescente, em meados da estação seca, isto é, em outubro ou novembro, e dura, como as outras, nove dias. No primeiro dia tem lugar uma enorme procissão, partindo da catedral, para onde a santa foi trazida alguns dias antes, e terminando na capela ou ermida (como chamam), da santa, em Nazaré, a uma distância de mais de duas milhas. Toda a população vem para a rua nessa ocasião. Todos os soldados, tanto de linha, como da Guarda Nacional, tomam parte na procissão, cada batalhão acompanhado por sua banda de música. Acompanham-na também as autoridades civis, com o presidente à frente, bem como as pessoas gradas, inclusive muitos residentes estrangeiros. O bote dos náufragos portugueses é transportado, atrás da santa, nos ombros de oficiais de marinha e marinheiros, e em seguida vêm os outros símbolos dos milagres realizados por Nossa Senhora. A procissão tem início logo que o sol começa a declinar, isto é, mais ou menos às quatro e meia da tarde. Quando se deposita a imagem na capela, considera-se a festa como inaugurada, e a aldeia é, todas as noites, o ponto de reunião da população que procura divertir-se, sendo a parte festiva do programa precedida, naturalmente, por um serviço religioso na capela. O aspecto da praça é então o de uma feira, sem o bom humor e a galhofa de festas semelhantes na Inglaterra, mas também sem a sua algazarra e grosseria. Preparam-se grandes salas para vistas panorâmicas e outros divertimentos onde o público tem entrada grátis. Há todas as noites grande queima de fogos de artifício, tudo obedecendo a um programa publicado da festa.

*In: BATES, Henry Walter. Um naturalista no Rio Amazonas. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1944, pp. 121-127.

Henry Walter Bates nasceu em Leicester, a 8 de fevereiro de 1825. Ansiando pertencer ao seleto grupo da comunidade científica, mesmo impossibilitado de ter formação acadêmica e com recursos limitados, em 1844 associou-se ao também naturalista Alfred Russel Wallace (1823-1913), para, juntos, excursionarem pelos rios Tocantins e Amazonas, em busca de informações sobre a origem das espécies. Durante a expedição, que durou cerca de onze anos, Bates se destacou por ser metódico e dedicado, recolhendo uma coleção de 14.712 espécies, sendo 8.000 desconhecidas. Após retornar à Inglaterra em 1859, teve seu trabalho reconhecido o que lhe permitiu atuar como secretário-assistente da Sociedade Real de Geografia de Londres, colaborador da Linnean Society e da Entomological Society. Bates tornou-se um reconhecido entomólogo, elogiado inclusive por Charles Darwin (1809-1822), que prefaciou a edição original de The Naturalist on the River Amazons, a Record of Adventures, Habits of Animals, Sketches of Brazilian and Indian Life (1863). Darwin tinha motivos para tal, pois a coleção contribuiu decisivamente para o progresso de suas teorias acerca da evolução das espécies. Bates deixou ainda uma importante descrição dos usos e costumes dos locais por onde passou, especialmente Belém, onde residiu por um ano e meio. Ele faleceu em Londres, a 16 de fevereiro de 1892.

Saturday, September 21, 2013

Avenida São Jerônimo. Antônio Parreiras, óleo sobre tela, 64,4 x 54cm, 1905. Acervo: Museu de Arte de Belém.
Lá no ano de 1928, o poeta Manuel Bandeira visitou Belém:

BEMBEBELÉM
Viva Belém!

ele saudou com alegria, a

cidade pomar
(Obrigou a polícia a classificar um tipo novo de delinquente
O apedrejador de mangueiras).

Que beleza, as ruas e avenidas bordadas pelas frondes enormes das mangueiras que dão sombra e frutos ao passeante!
A rua democratiza o pomar em

Belém do Pará onde as avenidas se chamam Estradas
Estrada de São Jerônimo (1)
Estrada de Nazaré
Onde a banal Avenida Marechal Deodoro da Fonseca
de todas as cidade do Brasil

Se chama liricamente
Brasileiramente 
Estrada de Generalíssimo Deodoro!

O poeta Manuel Bandeira identificou-se com a "cidade-pomar", como se ela fosse um Recife de sua Evocação:

Recife bom, Recife brasileiro como a casa do meu avô.

Está no arbítrio de qualquer um desfrutar essa paisagem, esses frutos, e ver essas Estradas de cúpulas verdes. É só sair à rua, de preferência pelas manhãs, cedinho. Passai pelo Largo da Pólvora (Praça da República, mas o povo obedece à tradição de um depósito de pólvora que aí existiu no século dezoito), onde, de um lado e de outro - por todos os lados, digo melhor -, o céu está encoberto de verde.
Segui pela Avenida Nazaré - a Estrada de Nazaré para muitos belemenses - e continuareis a fruir uma agradável sensação de frescor e de perfumes de planta. É assim na Avenida São Jerônimo, na Avenida Generalíssimo Deodoro, nas ruas transversais à Nazaré, que em Belém, não sei porquê, se chamam Travessas. É assim na Praça Batista Campos e em muitas ruas de bairro. No Largo do Palácio. Na Avenida Independência (2). Na Avenida José Bonifácio. Na Avenida Braz de Aguiar, que já se chamou São Braz. Túneis de verdura, justificando a "cidade-pomar" do poeta.
As "Estradas" eram os antigos caminhos de mato, as estradas de penetração. Descreveu Daniel Kidder, pastor protestante, que viu Belém em 1841, "as bem traçadas ruas, nas apenas uma exígua vereda serpeia por entre o matagal que os cobre". O norte-americano, perambulando nesses caminhos de mato, achava que "o frescor das sombras silenciosas é sempre convidativo".
Com o desenvolvimento urbano as "estradas" perderam o mato e tomaram o nome de Avenidas. Estrada de Nazaré, Estrada do Paul d'Água, Estrada de São José, Estrada de Bragança, Estrada do Utinga, Estrada das Mongubeiras, Estrada do Arsenal, Estrada da Olaria, Estrada da Constituição. Mesmo depois de ganharem nova classificação, várias continuaram "Estradas" no falar do povo. As que mudaram de nome conseguiram impor-se, paulatinamente, como avenidas. As que por milagre escaparam à sanha mudadora (que sabor a gente dizer Estrada de Nazaré!) trouxeram até nós o hábito de referi-las pelo nome que evoca um estágio de evolução de Belém.
Com os anos e os atos nem sempre louváveis dos governantes (lembro-me do poeta Manuel Bandeira em sue poema Evocação do Recife: "Rua da União.../ Como eram lindos os nomes de minha infância/ Rua do Sol/ Tenho medo que hoje se chame rua Dr. Fulano de Tal)", aqueles logradouros mudaram de nome. Não, não foi só o designativo de "Estrada": foram-se, também, os legítimos nomes, cheios de ressonância poética, portadores de experiência social, testemunhas das transformações urbanas, das vidas que pela cidade passaram.
Paul d'Água tomou, é certo, nome mais expressivo: São Jerônimo, em homenagem a um dos maiores administradores que teve o Pará (1848): o Presidente Jerônimo Francisco Coelho. Este cidadão foi um abnegado, como administrador e como criatura humana. Basta lembrar sua atuação nos dias terríveis da epidemia de febre amarela que flagelou a cidade no ano de 1850. Ele acudia pessoalmente aos enfermos, dispensando todos os socorros possíveis na Provìncia.
Na administração pública Jerônimo Coelho se notabilizou sobretudo pelo seu gosto urbanístico: "quando cheguei a esta Província somente havia uma estrada que comunicava o Largo da Pólvora com o dito arraial de Nazaré, cuja praça da parte de Leste da Igreja, estava sem mato". A estrada a que ele se refere é a atual Avenida de Nazaré.
O sítio "plano, elevado, enxuto e sadio era próprio para nele se edificarem quintas, e para todo o tempo estender-se a cidade, para o que oferece excelentes proporções". Hoje é o elegante bairro de Nazaré e de São Jerônimo. Mas o grande administrador só se contentou quando ele mesmo foi praticar urbanismo: "Nas horas em que podia desembaraçar-me do serviço da administração, lancei mão dos instrumentos topográficos e pessoalmente levantei a planta do mesmo arraial", retalhando-o "em ruas, travessas, na maior parte das quais fiz plantar linhas de arvoredos, em número de 1000 árvores, aproximadamente".
O Presidente Jerônimo Coelho antecipou-se à Antônio Lemos, no gosto de servir a cidade, com arte, amor e compreensão ecológica.

Postal do início do século XX mostrando o cruzamento das avenidas Governador José Malcher e Generalíssimo Deodoro.
E vede, leitor, o lirismo dos antepassados belemenses: não o prosaico de uma Avenida Presidente Jerônimo Coelho, mas, seraficamente, "São Jerônimo" - loas ao Santo e ao homem.
(A Igreja Católica venera em São Jerônimo "o maior doutor que o Céu lhe deu para a interpretação da Sagrada Escritura", conforme as palavras do Papa Bento XV, e, também, celebra a sua capacidade de trabalho, o que identifica ao Jerônimo, Presidente da Província).
São Jerônimo incorporou-se à geografia urbana. Larga e formosa avenida, disputa à de Nazaré a preferência e o bom-gosto do morador belemense. Avenidas irmãs, na beleza e no traçado, que ninguém se lembre de mudar o seu nome! Seria crime de lesa-cidade e uma injustiça (quanto a São Jerônimo) a um dos maiores administradores do Pará, e um desapreço ao Santo "Pai e Doutor da Igreja Latina!".
E se estou entrando nesse assunto, desejo falar ao turista sobre certos designativos de vias públicas lamentavelmente desaparecidos da cidade. Rua do Espírito Santo (Dr. Assis), rua do Poço do Bispo (Dr. Morais), rua dos Cavaleiros (Dr. Malcher), rua Água das Flores (Travessa de Cintra), rua Cruz das Almas (Arcipreste Manuel Teodoro), rua do Rosário (Aristides Lobo), rua das Flores (Lauro Sodré), rua dos Mártires (28 de Setembro), rua São João (João Diogo), rua São Mateus (Padre Eutíquio), Estrada São José (Avenida 16 de Novembro).
A lista seria longa. Mas os nomes que enunciei já permitem um confronto. Mas os nomes que enunciei já permitem um confronto. Quais os mais bonitos? Quais os mais espontâneos, mais saborosamente belemenses, porque brotaram da sensibilidade do povo, marcados pela alma dos tempos?
Nazaré foi o primeiro caminho aberto do bairro da Campina à ermida de Nossa Senhora de Nazaré, local onde hoje está a Basílica da Santa. São Jerônimo conduzia ao paul d'água, fonte de abastecimento da população até por volta de 1890. Não vos disse, acima, que esses nomes antigos são ricos de experiência belemense?
Um filho ilustre de Belém, diplomata e membro da Academia Brasileira de Letras, Osvaldo Orico, recorda em seu livro de memórias o prazer que representava para si, menino de oito anos, morador no bairro do Reduto, ver-se perambular nessas Avenidas: "constituía uma festa para os meus olhos desembocar em São Jerônimo ou Nazaré, que eram logradouros aristocráticos de Belém, povoados de palacetes e mansões. Estendendo a vista por aquelas artérias, tinha-se a sensação de haver entrado em um túnel vegetal, com as mangueiras cruzando as copas de lado a lado, numa explosão de seiva e num capricho de urbanismo".
E falando em "capricho de urbanismo" é hora de dizer que o requinte florístico de Belém se deve a um homem de extremo bom-gosto, e administrador de alto quilate: o Intendente Antônio José de Lemos. Foi ele que encheu Belém de mangueiras, para coar a luz equatorial, amaciar-lhe a crueza. Substituiu pela nobre espécie oriental os taperebazeiros, as mongubeiras, magnólias do Japão e ponciamas, árvores menos generosas no que podiam dar de sombra, de beleza e de apetitoso aos frutos.
Que safra alegre e farta oferecem democraticamente as mangueiras! É só juntar o fruto da rua e comê-lo. Ninguém poderá esquecer o barulho das mangas ao cair no chão durante as horas mais calmas do dia e no silêncio das madrugadas. Plaf... Plaf... Plaf... Música de cidade-pomar...
Os meninos, durante o dia, sobretudo nas horas de ventania forte, prenúncio de temporal, são atraídos pelo som familiar e correm a disputar os frutos. Até uma quadrinha surgiu para marcar um instante profundamente belemense:

A chuva está chovendo
O vento está ventando
As mangas estão caindo
Os meninos estão se juntando

Há, nessa concorrência, o fato curioso da alegação do menino que se julga o legítimo proprietário da manga despencada no espaço fronteiro à sua casa. Os outros meninos respeitam-na.
Mas a garotada não se contenta em esperar que a natureza ponha ao seu alcance os doces pomos. Idealizou, então, o estratagema do "bole" (3) uma linha bem longa em cuja extremidade pende um caco de pedra. Lançado no espaço, em direção às pencas de manga, o "bole" deve-se enrolar nos caules da fruta. Depois, é iniciada a operação de puxar a linha, como quem empina "papagaio", até conseguir desprender da árvore a presa cobiçável.


A Governador José Malcher hoje.
Fotografia de José Aragão. In: http://www.flickr.com/photos/aragao/2369588761/
Quantas vezes a gente encontra um transeunte "chupando" manga oferecida naquele instante pela generosidade da natureza! Chupar é bem o termo porque isto exige a abertura de pequeno orifício numa das extremidades da fruta, por onde a pessoa sorve o delicioso néctar, ao mesmo tempo que comprime as suas massas carnudas. "Chupar" manga é uma usança que se incorporou ao modo de ser do belememse.
O escritor Osvaldo Orico, rememorando uma cena ocorrida na meninice, destaca a "feira alegre dos pobres" - as mangueiras pejadas de frutos - que lhe fez nascer, um dia, o desejo de se regalar com uma penca de mangas. Aconteceu que a pedrada errou o alvo e foi alcançar os vidros de uma casa de moradia,a acidente comum nas "molecagens" de rua (no conceito dos prejudicados). Daí a repressão policial, em certo tempo, contra os apedrejadores de mangueiras, da evocação de Manuel Bandeira.
O menino Orico fugiu da repreensão certa. Logo mais, se aproveitou de uma dádiva natural: a ventania que lhe pôs ao alcance das mãos e do estômago, aquilo que não conseguira por esforço próprio: "não se se nessa tarde falei de uma região da terra em que as árvores das ruas costumavam revigorar os estômagos das crianças com a seiva dourada de seus frutos, oportunos e providenciais como um seio de mãe".
Não tem faltado gente que deseje "limpar" a cidade de suas queridas mangueiras. Que profanação! Um prefeito, anos atrás, ensaiou a retirada das árvores, O povo chamou-o de "lenhador". A experiência deu em fracasso por causa da reação popular. Que o Curupira (divindade amazônica protetora das árvores - quem derruba uma é punida por ele) livre de "lenhadores" a cidade de Belém.

Notas:
(1) Infelizmente alguém se lembrou de trocar o nome da Avenida São Jerônimo, que hoje se chama Avenida Governador José Malcher.
(2) A Avenida Independência hoje é chamada de Avenida Governador Magalhães Barata.
(3) O "bole", pelo menos na minha infância, era chamado de "bode".

* In: TOCANTINS, Leandro. Santa Maria de Belém do Grão Pará. 3 ed., Belo Horizonte: Itatiaia, 1987, pp. 127-135.

Leandro Góes Tocantins nasceu em Belém em 1928, e com apenas um ano de idade sua família se mudou para um seringal em um afluente do rio Juruá chamado Tarauacá. Foi aqui que Tocantins recolheu suas primeiras impressões acerca da região e que mais tarde estariam presentes em vários de seus livros. Aos 11 anos de idade, retornou a Belém para estudar de onde, mais tarde, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se formou primeiro em Direito e depois em Jornalismo. A partir daí estabeleceu uma sólida carreira dentro do funcionalismo público: foi adido cultural na embaixada brasileira de Lisboa, diretor cultural da Embrafilme e diretor da Embratur entre outros cargos. Entre suas maiores obras estão o clássico O rio comanda a vida (1952) que discute a importância e influência dos rios na vida dos habitantes da Amazônia, e A Formação Histórica do Acre (1961), no qual relata, literariamente, a história de seu estado adotivo. Leandro Tocantins sempre se considerou um "paraense-acreano". Em 1963, foi lançado Santa Maria de Belém do Grão Pará,  um "memorial lírico, histórico, turístico, sentimental" dedicado à cidade onde nasceu, que o autor conhecia "profundamente [e pela qual] bate intacta em seu coração". Leandro Tocantins morreu no Rio de Janeiro, a 29 de junho de 2004.
 

Daguerreótipo #20: As mangueiras, as mangas, as estradas de mangueiras*

Avenida São Jerônimo. Antônio Parreiras, óleo sobre tela, 64,4 x 54cm, 1905. Acervo: Museu de Arte de Belém.
Lá no ano de 1928, o poeta Manuel Bandeira visitou Belém:

BEMBEBELÉM
Viva Belém!

ele saudou com alegria, a

cidade pomar
(Obrigou a polícia a classificar um tipo novo de delinquente
O apedrejador de mangueiras).

Que beleza, as ruas e avenidas bordadas pelas frondes enormes das mangueiras que dão sombra e frutos ao passeante!
A rua democratiza o pomar em

Belém do Pará onde as avenidas se chamam Estradas
Estrada de São Jerônimo (1)
Estrada de Nazaré
Onde a banal Avenida Marechal Deodoro da Fonseca
de todas as cidade do Brasil

Se chama liricamente
Brasileiramente 
Estrada de Generalíssimo Deodoro!

O poeta Manuel Bandeira identificou-se com a "cidade-pomar", como se ela fosse um Recife de sua Evocação:

Recife bom, Recife brasileiro como a casa do meu avô.

Está no arbítrio de qualquer um desfrutar essa paisagem, esses frutos, e ver essas Estradas de cúpulas verdes. É só sair à rua, de preferência pelas manhãs, cedinho. Passai pelo Largo da Pólvora (Praça da República, mas o povo obedece à tradição de um depósito de pólvora que aí existiu no século dezoito), onde, de um lado e de outro - por todos os lados, digo melhor -, o céu está encoberto de verde.
Segui pela Avenida Nazaré - a Estrada de Nazaré para muitos belemenses - e continuareis a fruir uma agradável sensação de frescor e de perfumes de planta. É assim na Avenida São Jerônimo, na Avenida Generalíssimo Deodoro, nas ruas transversais à Nazaré, que em Belém, não sei porquê, se chamam Travessas. É assim na Praça Batista Campos e em muitas ruas de bairro. No Largo do Palácio. Na Avenida Independência (2). Na Avenida José Bonifácio. Na Avenida Braz de Aguiar, que já se chamou São Braz. Túneis de verdura, justificando a "cidade-pomar" do poeta.
As "Estradas" eram os antigos caminhos de mato, as estradas de penetração. Descreveu Daniel Kidder, pastor protestante, que viu Belém em 1841, "as bem traçadas ruas, nas apenas uma exígua vereda serpeia por entre o matagal que os cobre". O norte-americano, perambulando nesses caminhos de mato, achava que "o frescor das sombras silenciosas é sempre convidativo".
Com o desenvolvimento urbano as "estradas" perderam o mato e tomaram o nome de Avenidas. Estrada de Nazaré, Estrada do Paul d'Água, Estrada de São José, Estrada de Bragança, Estrada do Utinga, Estrada das Mongubeiras, Estrada do Arsenal, Estrada da Olaria, Estrada da Constituição. Mesmo depois de ganharem nova classificação, várias continuaram "Estradas" no falar do povo. As que mudaram de nome conseguiram impor-se, paulatinamente, como avenidas. As que por milagre escaparam à sanha mudadora (que sabor a gente dizer Estrada de Nazaré!) trouxeram até nós o hábito de referi-las pelo nome que evoca um estágio de evolução de Belém.
Com os anos e os atos nem sempre louváveis dos governantes (lembro-me do poeta Manuel Bandeira em sue poema Evocação do Recife: "Rua da União.../ Como eram lindos os nomes de minha infância/ Rua do Sol/ Tenho medo que hoje se chame rua Dr. Fulano de Tal)", aqueles logradouros mudaram de nome. Não, não foi só o designativo de "Estrada": foram-se, também, os legítimos nomes, cheios de ressonância poética, portadores de experiência social, testemunhas das transformações urbanas, das vidas que pela cidade passaram.
Paul d'Água tomou, é certo, nome mais expressivo: São Jerônimo, em homenagem a um dos maiores administradores que teve o Pará (1848): o Presidente Jerônimo Francisco Coelho. Este cidadão foi um abnegado, como administrador e como criatura humana. Basta lembrar sua atuação nos dias terríveis da epidemia de febre amarela que flagelou a cidade no ano de 1850. Ele acudia pessoalmente aos enfermos, dispensando todos os socorros possíveis na Provìncia.
Na administração pública Jerônimo Coelho se notabilizou sobretudo pelo seu gosto urbanístico: "quando cheguei a esta Província somente havia uma estrada que comunicava o Largo da Pólvora com o dito arraial de Nazaré, cuja praça da parte de Leste da Igreja, estava sem mato". A estrada a que ele se refere é a atual Avenida de Nazaré.
O sítio "plano, elevado, enxuto e sadio era próprio para nele se edificarem quintas, e para todo o tempo estender-se a cidade, para o que oferece excelentes proporções". Hoje é o elegante bairro de Nazaré e de São Jerônimo. Mas o grande administrador só se contentou quando ele mesmo foi praticar urbanismo: "Nas horas em que podia desembaraçar-me do serviço da administração, lancei mão dos instrumentos topográficos e pessoalmente levantei a planta do mesmo arraial", retalhando-o "em ruas, travessas, na maior parte das quais fiz plantar linhas de arvoredos, em número de 1000 árvores, aproximadamente".
O Presidente Jerônimo Coelho antecipou-se à Antônio Lemos, no gosto de servir a cidade, com arte, amor e compreensão ecológica.

Postal do início do século XX mostrando o cruzamento das avenidas Governador José Malcher e Generalíssimo Deodoro.
E vede, leitor, o lirismo dos antepassados belemenses: não o prosaico de uma Avenida Presidente Jerônimo Coelho, mas, seraficamente, "São Jerônimo" - loas ao Santo e ao homem.
(A Igreja Católica venera em São Jerônimo "o maior doutor que o Céu lhe deu para a interpretação da Sagrada Escritura", conforme as palavras do Papa Bento XV, e, também, celebra a sua capacidade de trabalho, o que identifica ao Jerônimo, Presidente da Província).
São Jerônimo incorporou-se à geografia urbana. Larga e formosa avenida, disputa à de Nazaré a preferência e o bom-gosto do morador belemense. Avenidas irmãs, na beleza e no traçado, que ninguém se lembre de mudar o seu nome! Seria crime de lesa-cidade e uma injustiça (quanto a São Jerônimo) a um dos maiores administradores do Pará, e um desapreço ao Santo "Pai e Doutor da Igreja Latina!".
E se estou entrando nesse assunto, desejo falar ao turista sobre certos designativos de vias públicas lamentavelmente desaparecidos da cidade. Rua do Espírito Santo (Dr. Assis), rua do Poço do Bispo (Dr. Morais), rua dos Cavaleiros (Dr. Malcher), rua Água das Flores (Travessa de Cintra), rua Cruz das Almas (Arcipreste Manuel Teodoro), rua do Rosário (Aristides Lobo), rua das Flores (Lauro Sodré), rua dos Mártires (28 de Setembro), rua São João (João Diogo), rua São Mateus (Padre Eutíquio), Estrada São José (Avenida 16 de Novembro).
A lista seria longa. Mas os nomes que enunciei já permitem um confronto. Mas os nomes que enunciei já permitem um confronto. Quais os mais bonitos? Quais os mais espontâneos, mais saborosamente belemenses, porque brotaram da sensibilidade do povo, marcados pela alma dos tempos?
Nazaré foi o primeiro caminho aberto do bairro da Campina à ermida de Nossa Senhora de Nazaré, local onde hoje está a Basílica da Santa. São Jerônimo conduzia ao paul d'água, fonte de abastecimento da população até por volta de 1890. Não vos disse, acima, que esses nomes antigos são ricos de experiência belemense?
Um filho ilustre de Belém, diplomata e membro da Academia Brasileira de Letras, Osvaldo Orico, recorda em seu livro de memórias o prazer que representava para si, menino de oito anos, morador no bairro do Reduto, ver-se perambular nessas Avenidas: "constituía uma festa para os meus olhos desembocar em São Jerônimo ou Nazaré, que eram logradouros aristocráticos de Belém, povoados de palacetes e mansões. Estendendo a vista por aquelas artérias, tinha-se a sensação de haver entrado em um túnel vegetal, com as mangueiras cruzando as copas de lado a lado, numa explosão de seiva e num capricho de urbanismo".
E falando em "capricho de urbanismo" é hora de dizer que o requinte florístico de Belém se deve a um homem de extremo bom-gosto, e administrador de alto quilate: o Intendente Antônio José de Lemos. Foi ele que encheu Belém de mangueiras, para coar a luz equatorial, amaciar-lhe a crueza. Substituiu pela nobre espécie oriental os taperebazeiros, as mongubeiras, magnólias do Japão e ponciamas, árvores menos generosas no que podiam dar de sombra, de beleza e de apetitoso aos frutos.
Que safra alegre e farta oferecem democraticamente as mangueiras! É só juntar o fruto da rua e comê-lo. Ninguém poderá esquecer o barulho das mangas ao cair no chão durante as horas mais calmas do dia e no silêncio das madrugadas. Plaf... Plaf... Plaf... Música de cidade-pomar...
Os meninos, durante o dia, sobretudo nas horas de ventania forte, prenúncio de temporal, são atraídos pelo som familiar e correm a disputar os frutos. Até uma quadrinha surgiu para marcar um instante profundamente belemense:

A chuva está chovendo
O vento está ventando
As mangas estão caindo
Os meninos estão se juntando

Há, nessa concorrência, o fato curioso da alegação do menino que se julga o legítimo proprietário da manga despencada no espaço fronteiro à sua casa. Os outros meninos respeitam-na.
Mas a garotada não se contenta em esperar que a natureza ponha ao seu alcance os doces pomos. Idealizou, então, o estratagema do "bole" (3) uma linha bem longa em cuja extremidade pende um caco de pedra. Lançado no espaço, em direção às pencas de manga, o "bole" deve-se enrolar nos caules da fruta. Depois, é iniciada a operação de puxar a linha, como quem empina "papagaio", até conseguir desprender da árvore a presa cobiçável.


A Governador José Malcher hoje.
Fotografia de José Aragão. In: http://www.flickr.com/photos/aragao/2369588761/
Quantas vezes a gente encontra um transeunte "chupando" manga oferecida naquele instante pela generosidade da natureza! Chupar é bem o termo porque isto exige a abertura de pequeno orifício numa das extremidades da fruta, por onde a pessoa sorve o delicioso néctar, ao mesmo tempo que comprime as suas massas carnudas. "Chupar" manga é uma usança que se incorporou ao modo de ser do belememse.
O escritor Osvaldo Orico, rememorando uma cena ocorrida na meninice, destaca a "feira alegre dos pobres" - as mangueiras pejadas de frutos - que lhe fez nascer, um dia, o desejo de se regalar com uma penca de mangas. Aconteceu que a pedrada errou o alvo e foi alcançar os vidros de uma casa de moradia,a acidente comum nas "molecagens" de rua (no conceito dos prejudicados). Daí a repressão policial, em certo tempo, contra os apedrejadores de mangueiras, da evocação de Manuel Bandeira.
O menino Orico fugiu da repreensão certa. Logo mais, se aproveitou de uma dádiva natural: a ventania que lhe pôs ao alcance das mãos e do estômago, aquilo que não conseguira por esforço próprio: "não se se nessa tarde falei de uma região da terra em que as árvores das ruas costumavam revigorar os estômagos das crianças com a seiva dourada de seus frutos, oportunos e providenciais como um seio de mãe".
Não tem faltado gente que deseje "limpar" a cidade de suas queridas mangueiras. Que profanação! Um prefeito, anos atrás, ensaiou a retirada das árvores, O povo chamou-o de "lenhador". A experiência deu em fracasso por causa da reação popular. Que o Curupira (divindade amazônica protetora das árvores - quem derruba uma é punida por ele) livre de "lenhadores" a cidade de Belém.

Notas:
(1) Infelizmente alguém se lembrou de trocar o nome da Avenida São Jerônimo, que hoje se chama Avenida Governador José Malcher.
(2) A Avenida Independência hoje é chamada de Avenida Governador Magalhães Barata.
(3) O "bole", pelo menos na minha infância, era chamado de "bode".

* In: TOCANTINS, Leandro. Santa Maria de Belém do Grão Pará. 3 ed., Belo Horizonte: Itatiaia, 1987, pp. 127-135.

Leandro Góes Tocantins nasceu em Belém em 1928, e com apenas um ano de idade sua família se mudou para um seringal em um afluente do rio Juruá chamado Tarauacá. Foi aqui que Tocantins recolheu suas primeiras impressões acerca da região e que mais tarde estariam presentes em vários de seus livros. Aos 11 anos de idade, retornou a Belém para estudar de onde, mais tarde, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se formou primeiro em Direito e depois em Jornalismo. A partir daí estabeleceu uma sólida carreira dentro do funcionalismo público: foi adido cultural na embaixada brasileira de Lisboa, diretor cultural da Embrafilme e diretor da Embratur entre outros cargos. Entre suas maiores obras estão o clássico O rio comanda a vida (1952) que discute a importância e influência dos rios na vida dos habitantes da Amazônia, e A Formação Histórica do Acre (1961), no qual relata, literariamente, a história de seu estado adotivo. Leandro Tocantins sempre se considerou um "paraense-acreano". Em 1963, foi lançado Santa Maria de Belém do Grão Pará,  um "memorial lírico, histórico, turístico, sentimental" dedicado à cidade onde nasceu, que o autor conhecia "profundamente [e pela qual] bate intacta em seu coração". Leandro Tocantins morreu no Rio de Janeiro, a 29 de junho de 2004.
 

Saturday, September 7, 2013

O ano era 1972 e o Brasil celebrava os 150 anos enquanto país independente. Eram tempos de regime militar e chegavam às salas de cinema dois filmes que discutiam as figuras de alguns heróis construídos ao longo da nossa história. De um lado, Joaquim Pedro de Andrade lançava Os Inconfidentes, longa-metragem que conta com José Wilker no papel de Tiradentes. Ali, o espectador é convidado a se enviesar pelo lado mais duro do processo sócio-político que culminou no surgimento do Estado independente. Esta seria a consequência de um projeto disputado por jovens idealistas, rapidamente contidos e torturados pelas forças repressoras da Coroa portuguesa. De outro, havia o filme Independência ou Morte!, dirigido por Carlos Coimbra, acompanhamos a vida e os obstáculos enfrentados por D. Pedro I - interpretado por Tarcísio Meira -, herdeiro de um trono europeu e transformado em Imperador de um jovem país americano.
Durante anos, o longa esteve presente em salas de aula e nas contínuas exibições das redes de TV, sempre que chegava o 7 de setembro. E ao nos dispormos a analisa-lo, seria muito simplório desancar a película por suas limitações técnicas e, mais ainda, por suas omissões narrativas. A título de exemplo, basta dizer que em sua uma hora e 47 minutos de duração, Independência ou Morte! não menciona sequer uma vez o fato do Brasil ter mantido a instituição da escravatura. Vemos nas telas, obviamente, figurantes negros realizando o trabalho braçal, carregando pessoas, vendendo frutas e batendo açúcar em tachos. No entanto, nenhum dos personagens utiliza a palavra “escravo” ou “escravidão”, ou mesmo dirige-se aos atores negros. Vale destacar que a manutenção da escravatura foi, ao tempo da Independência, pomo da discórdia e cerne do projeto político vitorioso de Estado independente, sendo discutida amplamente na Assembleia Constituinte e na imprensa da época. Outra ausência é a da própria criação do ente que hoje conhecemos pelo nome Brasil. Não há referência alguma à Confederação do Equador (1824-1825) ou ao fato de ter sido necessário lutar contra tropas portuguesas nas regiões Norte e Nordeste, quando declarada nossa autonomia.
Mais importante ainda, é buscar aquilo que o filme propõe como discurso histórico. Seja a visão revisionista sobre o Sul na Guerra de Secessão Americana (1861-1865), em E o vento levou (1939), seja a empreitada contra o jacobinismo na produção francesa Danton, o processo da Revolução (1983). Independência ou Morte! nos mostra um Brasil nascido naturalmente, a partir da vontade de um só homem, D. Pedro I. Como que caído do céu, o novo Estado não parece possuir qualquer cisão interna, salvo as maledicências espalhadas em torno do Imperador e de D. Domitila de Castro, a Marquesa de Santos, interpretada por Glória Menezes. É significativo observar, a este respeito, que a única guerra mostrada no filme é a da Cisplatina (1825-1828), interpretada como uma invasão dos “platinos” ao Brasil. “Não posso admitir invasões em terras brasileiras. Vou levá-los a chicote, de volta a seu país” anuncia nosso protagonista, decidindo comandar pessoalmente as tropas que se encarregarão de expulsar os “invasores”.
O Brasil, mais do que uma ideia, teria sido, de acordo com o filme, um fato consumado, sedento de liberdade e necessitado de ordem. Pode mesmo soar um pouco excessivo, mas há no D. Pedro do diretor Carlos Coimbra o que, anos mais tarde, estaria presente no Batman de Christopher Nolan, por exemplo: é “o herói que merecemos, mas não o que queremos”. Abrindo o filme brasileiro com os eventos de 1831, que culminarão em sua renúncia ao trono, D. Pedro resiste em atender às exigências da população do Rio de Janeiro, pois como ele próprio o diz: “Informarei aos amotinados que eu estou pronto a fazer tudo para o povo, nada, porém, pelo povo”. Ao cabo da trama está selado seu papel como o de responsável por imprimir o caráter e a audácia necessários à independência, os quais o “povo”, por conta própria, não teria condições de suprir.

Daí seu tórrido caso de amor com Domitila ser de tamanha relevância. No filme, o Brasil se torna resultado não apenas das ações, mas, sobretudo da personalidade viril de Sua Majestade Imperial, que vai moldando o destino das gentes àquilo que ele sabe ser o mais apropriado para elas e para o país. Uma liderança mais pessoal do que institucional teria garantido a liberdade, o território e mesmo a “democracia” brasileiras. Que importa se D. Pedro fechou a Assembleia Constituinte empossada em 1823, se ele próprio caminhava sem a segurança de tropas pelas ruas da Corte e falava diretamente com seus súditos, como mostrado na película? Este é inclusive um recurso amplamente utilizado na trama, encontrado nas cenas em que o monarca se dirige a uma adega ou ao estábulo, nos quais soldados e civis reúnem-se para discutir os fatos do dia. A eles, Pedro esclarece suas decisões e mede, como a um termômetro, a temperatura causada pelas mesmas. Independência ou Morte!teve de lutar contra a acusação de haver sido instrumento de propaganda do regime militar, mas talvez o tenha sido de um discurso de longuíssima durabilidade histórica, passível de identificação em diversos momentos do desenvolvimento político brasileiro. Trata-se da imagem do Brasil como produto de líderes ilustrados, mais capazes de ver as potencialidades da terra e do povo do que o próprio corpo constitutivo da nação. Não teria interessado apenas ao regime militar disseminar esta opinião, mas ao Estado Novo (1837-1945), à Primeira República, do voto do cabresto, e ao Império, que primeiro retirou aos analfabetos o direito de voto, em 1881. Mais do que instrumento de propaganda, Independência ou Morte! se apresenta hoje como prisma de discussão, em torno do qual pode-se discutir a natureza política do cinema nacional, o sentimento ufanista do Milagre econômico da década de 1970, e acima de tudo, as lutas, os homens e as ideias, desencadeadas na Independência do Brasil.

Independência ou Morte!*

O ano era 1972 e o Brasil celebrava os 150 anos enquanto país independente. Eram tempos de regime militar e chegavam às salas de cinema dois filmes que discutiam as figuras de alguns heróis construídos ao longo da nossa história. De um lado, Joaquim Pedro de Andrade lançava Os Inconfidentes, longa-metragem que conta com José Wilker no papel de Tiradentes. Ali, o espectador é convidado a se enviesar pelo lado mais duro do processo sócio-político que culminou no surgimento do Estado independente. Esta seria a consequência de um projeto disputado por jovens idealistas, rapidamente contidos e torturados pelas forças repressoras da Coroa portuguesa. De outro, havia o filme Independência ou Morte!, dirigido por Carlos Coimbra, acompanhamos a vida e os obstáculos enfrentados por D. Pedro I - interpretado por Tarcísio Meira -, herdeiro de um trono europeu e transformado em Imperador de um jovem país americano.
Durante anos, o longa esteve presente em salas de aula e nas contínuas exibições das redes de TV, sempre que chegava o 7 de setembro. E ao nos dispormos a analisa-lo, seria muito simplório desancar a película por suas limitações técnicas e, mais ainda, por suas omissões narrativas. A título de exemplo, basta dizer que em sua uma hora e 47 minutos de duração, Independência ou Morte! não menciona sequer uma vez o fato do Brasil ter mantido a instituição da escravatura. Vemos nas telas, obviamente, figurantes negros realizando o trabalho braçal, carregando pessoas, vendendo frutas e batendo açúcar em tachos. No entanto, nenhum dos personagens utiliza a palavra “escravo” ou “escravidão”, ou mesmo dirige-se aos atores negros. Vale destacar que a manutenção da escravatura foi, ao tempo da Independência, pomo da discórdia e cerne do projeto político vitorioso de Estado independente, sendo discutida amplamente na Assembleia Constituinte e na imprensa da época. Outra ausência é a da própria criação do ente que hoje conhecemos pelo nome Brasil. Não há referência alguma à Confederação do Equador (1824-1825) ou ao fato de ter sido necessário lutar contra tropas portuguesas nas regiões Norte e Nordeste, quando declarada nossa autonomia.
Mais importante ainda, é buscar aquilo que o filme propõe como discurso histórico. Seja a visão revisionista sobre o Sul na Guerra de Secessão Americana (1861-1865), em E o vento levou (1939), seja a empreitada contra o jacobinismo na produção francesa Danton, o processo da Revolução (1983). Independência ou Morte! nos mostra um Brasil nascido naturalmente, a partir da vontade de um só homem, D. Pedro I. Como que caído do céu, o novo Estado não parece possuir qualquer cisão interna, salvo as maledicências espalhadas em torno do Imperador e de D. Domitila de Castro, a Marquesa de Santos, interpretada por Glória Menezes. É significativo observar, a este respeito, que a única guerra mostrada no filme é a da Cisplatina (1825-1828), interpretada como uma invasão dos “platinos” ao Brasil. “Não posso admitir invasões em terras brasileiras. Vou levá-los a chicote, de volta a seu país” anuncia nosso protagonista, decidindo comandar pessoalmente as tropas que se encarregarão de expulsar os “invasores”.
O Brasil, mais do que uma ideia, teria sido, de acordo com o filme, um fato consumado, sedento de liberdade e necessitado de ordem. Pode mesmo soar um pouco excessivo, mas há no D. Pedro do diretor Carlos Coimbra o que, anos mais tarde, estaria presente no Batman de Christopher Nolan, por exemplo: é “o herói que merecemos, mas não o que queremos”. Abrindo o filme brasileiro com os eventos de 1831, que culminarão em sua renúncia ao trono, D. Pedro resiste em atender às exigências da população do Rio de Janeiro, pois como ele próprio o diz: “Informarei aos amotinados que eu estou pronto a fazer tudo para o povo, nada, porém, pelo povo”. Ao cabo da trama está selado seu papel como o de responsável por imprimir o caráter e a audácia necessários à independência, os quais o “povo”, por conta própria, não teria condições de suprir.

Daí seu tórrido caso de amor com Domitila ser de tamanha relevância. No filme, o Brasil se torna resultado não apenas das ações, mas, sobretudo da personalidade viril de Sua Majestade Imperial, que vai moldando o destino das gentes àquilo que ele sabe ser o mais apropriado para elas e para o país. Uma liderança mais pessoal do que institucional teria garantido a liberdade, o território e mesmo a “democracia” brasileiras. Que importa se D. Pedro fechou a Assembleia Constituinte empossada em 1823, se ele próprio caminhava sem a segurança de tropas pelas ruas da Corte e falava diretamente com seus súditos, como mostrado na película? Este é inclusive um recurso amplamente utilizado na trama, encontrado nas cenas em que o monarca se dirige a uma adega ou ao estábulo, nos quais soldados e civis reúnem-se para discutir os fatos do dia. A eles, Pedro esclarece suas decisões e mede, como a um termômetro, a temperatura causada pelas mesmas. Independência ou Morte!teve de lutar contra a acusação de haver sido instrumento de propaganda do regime militar, mas talvez o tenha sido de um discurso de longuíssima durabilidade histórica, passível de identificação em diversos momentos do desenvolvimento político brasileiro. Trata-se da imagem do Brasil como produto de líderes ilustrados, mais capazes de ver as potencialidades da terra e do povo do que o próprio corpo constitutivo da nação. Não teria interessado apenas ao regime militar disseminar esta opinião, mas ao Estado Novo (1837-1945), à Primeira República, do voto do cabresto, e ao Império, que primeiro retirou aos analfabetos o direito de voto, em 1881. Mais do que instrumento de propaganda, Independência ou Morte! se apresenta hoje como prisma de discussão, em torno do qual pode-se discutir a natureza política do cinema nacional, o sentimento ufanista do Milagre econômico da década de 1970, e acima de tudo, as lutas, os homens e as ideias, desencadeadas na Independência do Brasil.

Sunday, August 11, 2013

Monday, May 13, 2013

Missa campal em Ação de Graças que contou com a presença da princesa Isabel e cerca de vinte mil pessoas em celebração a abolição. Rio de Janeiro, 17 de maio de 1888.
A notícia da assinatura da Lei de 13 de maio teve ampla repercussão no Pará, onde o trabalho das ligas libertadoras associado à intensa campanha popular e a manumissão de escravos através das cotas, especialmente destinadas a esse fim, tinham tido, até então, efeito mais publicitário do que realmente filantrópico. Não se pode negar a agitação e propaganda em torno do magno problema. Na última década tornaram-se constantes e, na imprensa sobretudo, permitiram encaminhar a idéia da abolição, associada à república, objetivo político que se alastrara nas camadas intelectuais. Abolição e república representaram, consequentemente, um só movimento, embora na essência possam ser estudados isoladamente. A dicotomia desaparece no momento em que a classe detentora da propriedade do escravo se vê ameaçada. A abolição é o suporte da propaganda republicana. O partido republicano cresce então e se toma ameaçador. O controle do movimento revolucionário passa simultaneamente das mãos dos intelectuais para a ala liberal da monarquia, já neste momento detentora de grande parte do poder político, econômico e o de comunicação - a imprensa. Desta feita, a revolução social procederá a revolução política. E porque a campanha abolicionista está intimamente associada à campanha republicana, o enfoque da questão sempre se fez em conjunto. No plano social, vimos que no Pará essa questão não foi um processo descontínuo. Ao contrário. Surgiu historicamente como concreta e consequente difusão das idéias da Revolução Francesa, a que traçou os princípios da Declaração dos Direitos do Homem. Mas, das pregações de Luís Zagalo e da circular de Filipe Alberto Patroni ao 13 de maio de 1888, a história do Pará, e particularmente a história das idéias de reformas sociais e econômicas, decorreu de um modo bastante sinuoso, com avanços e recuos frequentes. Um avanço extraordinário foi certamente a Revolução dos Cabanos. O recuo resultante do esmagamento da revolução apresenta um período penumbroso, enquanto se realizava a reconstrução econômica e a reorganização de toda a máquina política e administrativa, durante o qual o negro, mais do que qualquer outra parcela da população sofreu as duras consequências da derrota.
Estado, Igreja e sociedade, unanimente investiram contra o negro escravo. Falou o conselheiro Jerônimo Francisco Coelho, presidente da província, à Assembléia Legislativa, na sessão ordinária da 6ª Legislatura, em 1º de outubro de 1848:

Nas margens do Lago Amapá, como antes vos disse, nas terras do Cabo do Norte, e no arquipélago das Ilhas da Foz do Amazonas existe considerável porção de indivíduos, grande parte foragidos desde as desordens de 1835, e outros que posteriormente se lhes têm agregado, inclusive desertores quilombolas, e réus de polícia ou vagabundos.

O negro aquilombado era tido invariavelmente criminoso, infame ou réprobo. A caça ao negro fujão e a destruição dos quilombos se fez de maneira sistemática e impiedosa.
Charge de autoria atribuída a Ângelo Agostini (1843-1910) publicada na Revista Illustrada, publicação satírica de tiragem semanal (1876-1898).  Na edição acima, lançada a 19 de maio de 1888, se lê na legenda: "À Revista durante os festejos comemorativos da Abolição - Faltaríamos a mais sagrada das chapas se, antes de encetarmos a reprodução dos festejos, não gravássemos nesta primeira página, os nossos agradecimentos a todas as sociedades, corporações e classes que tanto nos saudaram durante estas festas”.
Todavia, a causa do negro - uma causa específica enquanto este lutou contra o cativeiro - tinha relações com os anseios gerais da população e com estes formava uma causa comum. A Cabanagem foi a prova definitiva. E depois da rebelião geral das massas, os mesmos anseios, embora reprimidos, perduravam e muitas vezes chegavam a se manifestar. Numa folha periódica desse tempo, apareceu um cronista adotando o pseudônimo de O Africano. Outros aparecerão e uma imprensa de agitação e propaganda terá circulação periodicamente. Também aparecerão órgãos de classe, sendo mais frequentes os que se dedicam à defesa dos interesses dos trabalhadores, então denominados artistas. Terão quase sempre existência efêmera. A imprensa regular ou será dedicada aos interesses das classes conservadoras ou órgãos oficiais ou oficiosos. Entre estes órgãos se colocam evidentemente os jornais de partidos políticos.
A causa dos escravos será defendida esporacidamente nesses jornais, o mais das vezes através de denúncias de sevícias de senhores ou excessos policiais. Neste particular, o aparecimento da imprensa humorística e satírica terá alguma significação, sobretudo quado surgem as folhas ilustradas, destacadamente O Puraqué e A Vida Paraense, ambos litografados na oficina do alemão Carlos Wiegandt, por volta de 1884. A imprensa abolicionista é consequência da fundação das ligas libertadoras e, no Pará, são poucos os órgãos impressos, entre outros, O Abolcionista (Belém, 1882), O Abolicionista Paranse (Belém, 1883-1884). Os órgãos de propaganda republicana apareceram na década anterior.
A defesa da causa dos escravos só adquiriu forma organizada e consequente com a criação das sociedades emancipadoras. Em 1858 o médico Antônio David Vasconcelos Canavarro, o jornalistas João Batista de Figueiredo Tenreiro Aranha e o professor José Teodoro Saraiva da Costa agitaram a idéia da criação da Sociedade Ypiranga, que tinha por fins promover a libertação dos escravos.
Essa inciativa não produziu os frutos que almejava. Algum tempo depois começaram a ocorrer alguns atos estimulantes, noticiados pelo imprensa como "atos de filantropia", tal como noticiou o Jornal do Pará:

ATO DE FILANTROPIA - Ontem estando expostas à venda no leilão do agente Castro, três mulatinhas escravas de menor idade pertencentes ao espólio de Francisco Antônio Simões, o negociante desta praça Frederico Vionne ofereceu um conto de réis pela liberdade delas e foi aceito.
Este ato de humanidade deste distinto cavalheiro foi muito aplaudido, recebendo em seguida um cordial abraço de todas as pessoas que assistiam a este ato.
Uma boa lição nunca fica sem a sua devida recompensa.

A primeira sociedade estável foi inciativa de outro estrangeiro, o austríaco Carlos Seidl, Associação Filantrópica de Emancipação dos Escravos, oganizada em 1869 e que pretendia libertar os escravos por "meios pacíficos e úteis aos escravos e aos senhores", sem prejuízo do direito de propriedade. Informa Ernesto Cruz que, mais tarde, "com a queda do ministério presidido pelo Barão de Cotegipe, e a consequente ascenção ao poder do gabinete João Alfredo, redobraram de atividade os abolicionistas paraenses".
(...) Tempo depois surgiu o Club Abolicionista Patroni, cujos estatutos foram apresentados pelo presidente da mesa provisória, o Dr. Manoel Moraes Bittencourt, através do requerimento ao presidente da Província, sendo os mesmos aprovados após obterem informação do desembargador procurador da Coroa (Portaria de 27 de maio de 1882). Segundo os estatutos, capítulo 1, a sociedade tinha a seguinte denominação e fins:

Art. 1º A Associação criada nesta cidade de Belém do Grão-Pará, com denominação - Club Abolicionista Patroni - tem por fim cooperar para a abolição da escravidão por todos os meios, legítimos e legais.
Art. 2º Esta associação existirá enquanto não for extinta a escravidão nesta província e se comporá de número ilimitado de sócios.

(...) Logo depois, pela Portaria de 20 de junho de 1882, Domingos Antônio Rayol, no exercício da vice-presidência, aprova os estatutos do Club Batista Campos. E mais outra liga se organiza, em 1883, a Sociedade Abolicionista 28 de Setembro, iniciativa dos catraieiros do porto de Belém que, reunidos em grande assembléia, decidiram não mais dar embarque, nem desembarque, a escravos.
Em 1884 dá-se verdadeira explosão emancipadora. Organizou-se a Liga Redentora presidida pelo conselheiro Tito Franco de Almeida; a União Reatora Contra a Escravidão, chefiada pelo conselheiro Romualdo Paes de Andrade e ainda o Club Amazônia, à frente do qual se encontrava o dr. José H. Cordeiro de Castro, e que estaria "exclusivamente dedicado à causa", conforme noticia A Vida Paraense nº 34, 4ª série, de 30 de abril daquele ano. Todavia, a mais ativa sociedade foi, sem dúvida, a 28 de Setembro, organizada pelos catraieiros do porto de Belém, portanto iniciativa popular. Em prol da sociedade foi publicado o livro Cartas e discursos abolicionistas, de Raimundo B. Leal Castello Branco, que reúne 7 cartas e 7 discursos relativos à escravidão.
A imprensa foi a principal porta-voz da campanha abolicionista, não só tornando-se simpática à causa, como manifestando, agora com grande veemência, repulsa à escravidão. O jornal A Inquisição, que na Questão Religiosa se colocara contrário à D. Antônio de Macedo Costa, fez propaganda da abolição em artigos assinados pelo professor José Theodoro Saraiva da Costa. O Diário de Notícias, propriedade de João Campbell, e A Província do Pará, sob a chefia do dr. José Joaquim de Assis (por sinal capitalista e fazendeiro no Marajó) e de Antônio José de Lemos, colocaram-se a serviço da causa abolicionista. O dr. José Agostinho dos Reis, engenheiro paraense, pregou com ardor a abolição da escravatura, em conferências, dircursos e artigos. Não se contam os poetas abolicionistas. A serviço da causa, artistas de teatro, como Lima Penante e músicos, como José Domingues Brandão. Até as lojas maçônicas, afiança Jorge hurley, empenharam-se na campanha.
As sociedades promoveram efetivamente a libertação de muitos escravos. A entrega das cartas de liberdades se constituía ato público solene, com vasta publicidade, e a data preferida era o 2 de dezembro, dia do aniversário natalício do imperador.
A Vida Paraense, jornal humorístico e satírico publicado pelo desenhista e escritor maranhense João Afonso do Nascimento, fixou na edição de 30 de março de 1884, uma dessas festas de doação de cartas de liberdade realizadas no Teatro da Paz. O jornal circulou precisamente numa data comemorativa, a que fora marcada para a redenção dos cativos da vila de Benevides, proximidades a Belém, à margem da ferrovia em construção. Por isso, à pag. 5 [acima], vem uma alegoria a esse ato, tendo como legenda o seguinte texto:

A Amazônia inscreve-se logo em seguida ao CEARÁ, lavrando com a redenção de Benevides o compromisso solene de empenhar-se para limpar o seu território, sem perturbação da ordem e do direito, da nódoa aviltante da escravidão.

A imprensa, de modo geral, deu ampla cobertura ao trabalho das ligas libertadoras. Ela tornou-se de súbito entusiasmo após os fatos ocorridos no Ceará. Na Tipografia Comercial do Pará, em 1884, foi impressa A Jangada, edição única comemorativa da emancipação dos escravos naquela Província. Noticiário e alegorias apareceram nos jornais de maior circulação. Publicou-se também muita poesia e se fez música para as mesmas ocasiões. Além de peças menores, José Domingues Brandão compõs uma abertura sinfõnica e José Cândido da Gama Malcher uma ópera abolicionistas, Bug-Jargal, com libreto de Vincenzo Valle, argumento tirado do romando homônimo de Victor Hugo. Trata da sublevação dos escravos na ilha de São Domingos, em 1791. Outros, como Roberto de Barros, compuseram hinos.
A abolição era uma festa.

* In SALLES, Vicente. O negro no Pará sob o regime da escravidão. 3ª ed., Belém: IAP/Programa Raízes, 2005, pp. 340-347.

Vicente Juarimbu Salles nasceu a 27 de novembro de 1931 na Vila de Caripi, uma localidade de Igarapé-Açu. Mudou-se para Belém para fazer o curso secundário, mesma época em que passou a contribuir com poesias, contos e crônicas para o jornal O Estado do Pará. Pouco tempo depois iniciou suas pesquisas sobre o folclore paraense, acumulando uma grande coleção de discos, partituras, jornais e fotografias acerca do tema. Em 1954, foi morar no Rio de Janeiro onde se formou bacharel em Ciências Sociais com especialização em Antropologia. A partir daí, realizou uma verdadeira peregrinação pelo território paraense em busca das mais variadas manifestações artísticas e culturais, especialmente a música e o teatro. Foi durante essas pesquisas que percebeu a importância do elemento negro na formação da sociedade e da cultura paraenses, tema do qual deixou obras hoje consideradas de referência como "O negro no Pará sob o regime da escravidão" (primeira edição lançada em 1968). Considerado um dos maiores intelectuais paraenses do século XX, Vicente Salles faleceuno dia 7 de março de 2013.   

Daguerreótipo #19: A abolição era uma festa*

Missa campal em Ação de Graças que contou com a presença da princesa Isabel e cerca de vinte mil pessoas em celebração a abolição. Rio de Janeiro, 17 de maio de 1888.
A notícia da assinatura da Lei de 13 de maio teve ampla repercussão no Pará, onde o trabalho das ligas libertadoras associado à intensa campanha popular e a manumissão de escravos através das cotas, especialmente destinadas a esse fim, tinham tido, até então, efeito mais publicitário do que realmente filantrópico. Não se pode negar a agitação e propaganda em torno do magno problema. Na última década tornaram-se constantes e, na imprensa sobretudo, permitiram encaminhar a idéia da abolição, associada à república, objetivo político que se alastrara nas camadas intelectuais. Abolição e república representaram, consequentemente, um só movimento, embora na essência possam ser estudados isoladamente. A dicotomia desaparece no momento em que a classe detentora da propriedade do escravo se vê ameaçada. A abolição é o suporte da propaganda republicana. O partido republicano cresce então e se toma ameaçador. O controle do movimento revolucionário passa simultaneamente das mãos dos intelectuais para a ala liberal da monarquia, já neste momento detentora de grande parte do poder político, econômico e o de comunicação - a imprensa. Desta feita, a revolução social procederá a revolução política. E porque a campanha abolicionista está intimamente associada à campanha republicana, o enfoque da questão sempre se fez em conjunto. No plano social, vimos que no Pará essa questão não foi um processo descontínuo. Ao contrário. Surgiu historicamente como concreta e consequente difusão das idéias da Revolução Francesa, a que traçou os princípios da Declaração dos Direitos do Homem. Mas, das pregações de Luís Zagalo e da circular de Filipe Alberto Patroni ao 13 de maio de 1888, a história do Pará, e particularmente a história das idéias de reformas sociais e econômicas, decorreu de um modo bastante sinuoso, com avanços e recuos frequentes. Um avanço extraordinário foi certamente a Revolução dos Cabanos. O recuo resultante do esmagamento da revolução apresenta um período penumbroso, enquanto se realizava a reconstrução econômica e a reorganização de toda a máquina política e administrativa, durante o qual o negro, mais do que qualquer outra parcela da população sofreu as duras consequências da derrota.
Estado, Igreja e sociedade, unanimente investiram contra o negro escravo. Falou o conselheiro Jerônimo Francisco Coelho, presidente da província, à Assembléia Legislativa, na sessão ordinária da 6ª Legislatura, em 1º de outubro de 1848:

Nas margens do Lago Amapá, como antes vos disse, nas terras do Cabo do Norte, e no arquipélago das Ilhas da Foz do Amazonas existe considerável porção de indivíduos, grande parte foragidos desde as desordens de 1835, e outros que posteriormente se lhes têm agregado, inclusive desertores quilombolas, e réus de polícia ou vagabundos.

O negro aquilombado era tido invariavelmente criminoso, infame ou réprobo. A caça ao negro fujão e a destruição dos quilombos se fez de maneira sistemática e impiedosa.
Charge de autoria atribuída a Ângelo Agostini (1843-1910) publicada na Revista Illustrada, publicação satírica de tiragem semanal (1876-1898).  Na edição acima, lançada a 19 de maio de 1888, se lê na legenda: "À Revista durante os festejos comemorativos da Abolição - Faltaríamos a mais sagrada das chapas se, antes de encetarmos a reprodução dos festejos, não gravássemos nesta primeira página, os nossos agradecimentos a todas as sociedades, corporações e classes que tanto nos saudaram durante estas festas”.
Todavia, a causa do negro - uma causa específica enquanto este lutou contra o cativeiro - tinha relações com os anseios gerais da população e com estes formava uma causa comum. A Cabanagem foi a prova definitiva. E depois da rebelião geral das massas, os mesmos anseios, embora reprimidos, perduravam e muitas vezes chegavam a se manifestar. Numa folha periódica desse tempo, apareceu um cronista adotando o pseudônimo de O Africano. Outros aparecerão e uma imprensa de agitação e propaganda terá circulação periodicamente. Também aparecerão órgãos de classe, sendo mais frequentes os que se dedicam à defesa dos interesses dos trabalhadores, então denominados artistas. Terão quase sempre existência efêmera. A imprensa regular ou será dedicada aos interesses das classes conservadoras ou órgãos oficiais ou oficiosos. Entre estes órgãos se colocam evidentemente os jornais de partidos políticos.
A causa dos escravos será defendida esporacidamente nesses jornais, o mais das vezes através de denúncias de sevícias de senhores ou excessos policiais. Neste particular, o aparecimento da imprensa humorística e satírica terá alguma significação, sobretudo quado surgem as folhas ilustradas, destacadamente O Puraqué e A Vida Paraense, ambos litografados na oficina do alemão Carlos Wiegandt, por volta de 1884. A imprensa abolicionista é consequência da fundação das ligas libertadoras e, no Pará, são poucos os órgãos impressos, entre outros, O Abolcionista (Belém, 1882), O Abolicionista Paranse (Belém, 1883-1884). Os órgãos de propaganda republicana apareceram na década anterior.
A defesa da causa dos escravos só adquiriu forma organizada e consequente com a criação das sociedades emancipadoras. Em 1858 o médico Antônio David Vasconcelos Canavarro, o jornalistas João Batista de Figueiredo Tenreiro Aranha e o professor José Teodoro Saraiva da Costa agitaram a idéia da criação da Sociedade Ypiranga, que tinha por fins promover a libertação dos escravos.
Essa inciativa não produziu os frutos que almejava. Algum tempo depois começaram a ocorrer alguns atos estimulantes, noticiados pelo imprensa como "atos de filantropia", tal como noticiou o Jornal do Pará:

ATO DE FILANTROPIA - Ontem estando expostas à venda no leilão do agente Castro, três mulatinhas escravas de menor idade pertencentes ao espólio de Francisco Antônio Simões, o negociante desta praça Frederico Vionne ofereceu um conto de réis pela liberdade delas e foi aceito.
Este ato de humanidade deste distinto cavalheiro foi muito aplaudido, recebendo em seguida um cordial abraço de todas as pessoas que assistiam a este ato.
Uma boa lição nunca fica sem a sua devida recompensa.

A primeira sociedade estável foi inciativa de outro estrangeiro, o austríaco Carlos Seidl, Associação Filantrópica de Emancipação dos Escravos, oganizada em 1869 e que pretendia libertar os escravos por "meios pacíficos e úteis aos escravos e aos senhores", sem prejuízo do direito de propriedade. Informa Ernesto Cruz que, mais tarde, "com a queda do ministério presidido pelo Barão de Cotegipe, e a consequente ascenção ao poder do gabinete João Alfredo, redobraram de atividade os abolicionistas paraenses".
(...) Tempo depois surgiu o Club Abolicionista Patroni, cujos estatutos foram apresentados pelo presidente da mesa provisória, o Dr. Manoel Moraes Bittencourt, através do requerimento ao presidente da Província, sendo os mesmos aprovados após obterem informação do desembargador procurador da Coroa (Portaria de 27 de maio de 1882). Segundo os estatutos, capítulo 1, a sociedade tinha a seguinte denominação e fins:

Art. 1º A Associação criada nesta cidade de Belém do Grão-Pará, com denominação - Club Abolicionista Patroni - tem por fim cooperar para a abolição da escravidão por todos os meios, legítimos e legais.
Art. 2º Esta associação existirá enquanto não for extinta a escravidão nesta província e se comporá de número ilimitado de sócios.

(...) Logo depois, pela Portaria de 20 de junho de 1882, Domingos Antônio Rayol, no exercício da vice-presidência, aprova os estatutos do Club Batista Campos. E mais outra liga se organiza, em 1883, a Sociedade Abolicionista 28 de Setembro, iniciativa dos catraieiros do porto de Belém que, reunidos em grande assembléia, decidiram não mais dar embarque, nem desembarque, a escravos.
Em 1884 dá-se verdadeira explosão emancipadora. Organizou-se a Liga Redentora presidida pelo conselheiro Tito Franco de Almeida; a União Reatora Contra a Escravidão, chefiada pelo conselheiro Romualdo Paes de Andrade e ainda o Club Amazônia, à frente do qual se encontrava o dr. José H. Cordeiro de Castro, e que estaria "exclusivamente dedicado à causa", conforme noticia A Vida Paraense nº 34, 4ª série, de 30 de abril daquele ano. Todavia, a mais ativa sociedade foi, sem dúvida, a 28 de Setembro, organizada pelos catraieiros do porto de Belém, portanto iniciativa popular. Em prol da sociedade foi publicado o livro Cartas e discursos abolicionistas, de Raimundo B. Leal Castello Branco, que reúne 7 cartas e 7 discursos relativos à escravidão.
A imprensa foi a principal porta-voz da campanha abolicionista, não só tornando-se simpática à causa, como manifestando, agora com grande veemência, repulsa à escravidão. O jornal A Inquisição, que na Questão Religiosa se colocara contrário à D. Antônio de Macedo Costa, fez propaganda da abolição em artigos assinados pelo professor José Theodoro Saraiva da Costa. O Diário de Notícias, propriedade de João Campbell, e A Província do Pará, sob a chefia do dr. José Joaquim de Assis (por sinal capitalista e fazendeiro no Marajó) e de Antônio José de Lemos, colocaram-se a serviço da causa abolicionista. O dr. José Agostinho dos Reis, engenheiro paraense, pregou com ardor a abolição da escravatura, em conferências, dircursos e artigos. Não se contam os poetas abolicionistas. A serviço da causa, artistas de teatro, como Lima Penante e músicos, como José Domingues Brandão. Até as lojas maçônicas, afiança Jorge hurley, empenharam-se na campanha.
As sociedades promoveram efetivamente a libertação de muitos escravos. A entrega das cartas de liberdades se constituía ato público solene, com vasta publicidade, e a data preferida era o 2 de dezembro, dia do aniversário natalício do imperador.
A Vida Paraense, jornal humorístico e satírico publicado pelo desenhista e escritor maranhense João Afonso do Nascimento, fixou na edição de 30 de março de 1884, uma dessas festas de doação de cartas de liberdade realizadas no Teatro da Paz. O jornal circulou precisamente numa data comemorativa, a que fora marcada para a redenção dos cativos da vila de Benevides, proximidades a Belém, à margem da ferrovia em construção. Por isso, à pag. 5 [acima], vem uma alegoria a esse ato, tendo como legenda o seguinte texto:

A Amazônia inscreve-se logo em seguida ao CEARÁ, lavrando com a redenção de Benevides o compromisso solene de empenhar-se para limpar o seu território, sem perturbação da ordem e do direito, da nódoa aviltante da escravidão.

A imprensa, de modo geral, deu ampla cobertura ao trabalho das ligas libertadoras. Ela tornou-se de súbito entusiasmo após os fatos ocorridos no Ceará. Na Tipografia Comercial do Pará, em 1884, foi impressa A Jangada, edição única comemorativa da emancipação dos escravos naquela Província. Noticiário e alegorias apareceram nos jornais de maior circulação. Publicou-se também muita poesia e se fez música para as mesmas ocasiões. Além de peças menores, José Domingues Brandão compõs uma abertura sinfõnica e José Cândido da Gama Malcher uma ópera abolicionistas, Bug-Jargal, com libreto de Vincenzo Valle, argumento tirado do romando homônimo de Victor Hugo. Trata da sublevação dos escravos na ilha de São Domingos, em 1791. Outros, como Roberto de Barros, compuseram hinos.
A abolição era uma festa.

* In SALLES, Vicente. O negro no Pará sob o regime da escravidão. 3ª ed., Belém: IAP/Programa Raízes, 2005, pp. 340-347.

Vicente Juarimbu Salles nasceu a 27 de novembro de 1931 na Vila de Caripi, uma localidade de Igarapé-Açu. Mudou-se para Belém para fazer o curso secundário, mesma época em que passou a contribuir com poesias, contos e crônicas para o jornal O Estado do Pará. Pouco tempo depois iniciou suas pesquisas sobre o folclore paraense, acumulando uma grande coleção de discos, partituras, jornais e fotografias acerca do tema. Em 1954, foi morar no Rio de Janeiro onde se formou bacharel em Ciências Sociais com especialização em Antropologia. A partir daí, realizou uma verdadeira peregrinação pelo território paraense em busca das mais variadas manifestações artísticas e culturais, especialmente a música e o teatro. Foi durante essas pesquisas que percebeu a importância do elemento negro na formação da sociedade e da cultura paraenses, tema do qual deixou obras hoje consideradas de referência como "O negro no Pará sob o regime da escravidão" (primeira edição lançada em 1968). Considerado um dos maiores intelectuais paraenses do século XX, Vicente Salles faleceuno dia 7 de março de 2013.   

Sunday, May 12, 2013

Thursday, April 25, 2013

Homenagem do Carro Gitinho ao movimento que derrubou o fascismo em Portugal.

25 de Abril

Homenagem do Carro Gitinho ao movimento que derrubou o fascismo em Portugal.

Monday, April 22, 2013

Carta escrita em 1º de maio de 1500, pelo escrivão Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal, D. Manuel, relatando a viagem da esquadra comandada por Pedro Álvares Cabral até o Brasil, os principais acontecimentos ocorridos durante a estada da tripulação em nosso futuro país e as impressões do autor e de outros membros da expedição sobre a nova terra e o povo nela encontrados. Divulgada no século XIX, foi durante muito tempo considerada "a certidão de batismo do Brasil" o que, à luz da historiografia recente, parece um pouco exagerado. Hoje, como se sabe, desconsidera-se a chegada de Cabral em 1500 não mais em termos de "descobrimento" e sim de tomada de posse. Isso sem falar nas pesquisas do historiador português Jorge Couto, que afirmar que o primeiro português a pisar em terras brasileiras - pelo menos documentado - teria sido Duarte Pacheco Pereira em 1498.
Entre as características principais da carta estão a preocupação do autor em informar sem recorrer a alusões eruditas ou informações científicas ou cosmográficas, conforme o gosto litarário daquele início do século XVI. Isso significa que Caminha registrou, de forma direta, as impressões que teve daquele acontecimento. Isso foi importante no processo de construção das alteridades, ou seja, a formação da imagem dos novos seres que foram sendo contactados durante as descobertas. Para tanto, Caminha elaborou sua narrativa com base na analogia com o que conhecia, ou seja, com os padrões europeus e com padrões observados nas terras já alcançados pelos portugueses na África.
Seja como for, a carta tem um valor inestimável. Pensei em postá-la completa, mas como ficaria praticamente impossível reproduzir todo seu texto aqui, segue um link onde você pode escutar um trecho de seu conteúdo. É só clicar no centro da barra abaixo. Se você clicar na frase "A Carta de Pero Vaz de Caminha", você irá ser direcionado para o YouTube. Peço desculpas, mas não deu tempo de achar um programa que convertesse isso legal:

 

A carta de Pero Vaz de Caminha

Carta escrita em 1º de maio de 1500, pelo escrivão Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal, D. Manuel, relatando a viagem da esquadra comandada por Pedro Álvares Cabral até o Brasil, os principais acontecimentos ocorridos durante a estada da tripulação em nosso futuro país e as impressões do autor e de outros membros da expedição sobre a nova terra e o povo nela encontrados. Divulgada no século XIX, foi durante muito tempo considerada "a certidão de batismo do Brasil" o que, à luz da historiografia recente, parece um pouco exagerado. Hoje, como se sabe, desconsidera-se a chegada de Cabral em 1500 não mais em termos de "descobrimento" e sim de tomada de posse. Isso sem falar nas pesquisas do historiador português Jorge Couto, que afirmar que o primeiro português a pisar em terras brasileiras - pelo menos documentado - teria sido Duarte Pacheco Pereira em 1498.
Entre as características principais da carta estão a preocupação do autor em informar sem recorrer a alusões eruditas ou informações científicas ou cosmográficas, conforme o gosto litarário daquele início do século XVI. Isso significa que Caminha registrou, de forma direta, as impressões que teve daquele acontecimento. Isso foi importante no processo de construção das alteridades, ou seja, a formação da imagem dos novos seres que foram sendo contactados durante as descobertas. Para tanto, Caminha elaborou sua narrativa com base na analogia com o que conhecia, ou seja, com os padrões europeus e com padrões observados nas terras já alcançados pelos portugueses na África.
Seja como for, a carta tem um valor inestimável. Pensei em postá-la completa, mas como ficaria praticamente impossível reproduzir todo seu texto aqui, segue um link onde você pode escutar um trecho de seu conteúdo. É só clicar no centro da barra abaixo. Se você clicar na frase "A Carta de Pero Vaz de Caminha", você irá ser direcionado para o YouTube. Peço desculpas, mas não deu tempo de achar um programa que convertesse isso legal: