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Sunday, August 25, 2013

Esse negócio de efemérides é um perigo. Algumas me deixam nostálgico mais do que bebum com dor de cotovelo. Uma delas é essa de hoje, a do Dia do Goleiro. Na bucha, sem pensar duas vezes, me vem em mente Gilmar dos Santos Neves. Pra mim, desde garoto, o antigo guarda-metas (como se dizia) do Santos dos anos 1960 é sinônimo de Goleiro, resumo de posição encantadora e maldita no futebol. Um gigante, um monstro, um craque, um galã, um gentleman. Um dos meus ídolos de sempre.
Lembro de Gilmar todo de preto, cotovelos e laterais do calção acolchoados. Uma segurança extraordinária no gol de um time temível, que rodava o mundo deixando rivais felizes e honrados com as surras que levavam. Lá atrás, estava o grande Gilmar, que crescia, ficava enorme na frente dos atacantes, e parecia não fazer força nenhuma na hora de defesas memoráveis. Era a pedra de segurança de uma equipe que encantava o mundo, me fascinava.
Gilmar também levava sua imponência para a seleção. Era o dono da grande área, senhor absoluto embaixo dos três paus. E não era espalhafatoso! Não lembro de tê-lo visto dar saltos de gato, como Manguinha, nem de sair tresloucado nos pés dos adversários. Nada. Era discreto, sóbrio. Passava-me sempre a sensação de que voltava para os vestiários impecável, com o uniforme limpo e pronto para ser dobrado e guardado. Meu primeiro sonho de infância ligado ao futebol era ser goleiro, era ser Gilmar.
E Gilmar eu me sentia quando ia na casa do vizinho, no Bom Retiro, para escarafunchar os fardamentos do time de várzea que a dona Lurdes, mulher do Nenê, lavava para ganhar uns trocados. Eu pegava a camisa e o calção do goleiro, vestia-os, sumia dentro daquela roupa (que fedia a atleta, mesmo com montanhas de sabão em pó) e me imaginava a fazer defesas que arrancavam aplausos da torcida que lotava o Pacaembu e o Maracanã.
Contemporâneos de Gilmar, e que até hoje recordo como extraordinários (aos meus olhos de garoto, pelo menos), também eram Cabeção, Valdir de Moraes, o russo Yahsin (o Aranha Negra), Picasso, o próprio Manga, Orlando, Marcial, Heitor (que um dia pegou pênalti de Pelé!), Machado (que num jogo do Botafogo de Ribeirão Preto levou 11 gols do Santos e ainda evitou outros 22), Castilho.
Depois vieram Felix, Raul (e sua cabeleira e camisa amarela), Leão, Sérgio Valentim, Banks (o da defesa em cabeçada de Pelé na Copa de 70), Andrada (o do milésimo do Pelé), Rojas, Rodolfo Rodrigues (sempre Santos, sempre Pelé…), Fillol, Butice. Mais novos, como Valdir Perez, Carlos, Taffarel, Zetti, Paulo Victor, Ronaldo. Até chegar em Velloso, Dida, Marcos, Rogério Ceni, Júlio Cesar, Gomes, Vitor, Fábio, Van der Saar, Buffon, Casillas…
A lista é enorme, e certamente estarei a esquecer centenas de nomes importantes, por ignorância e por falha de memória. Mas, com a recordação, pra mim eternamente doce, de Gilmar, deixo aqui minha homenagem ao goleiro, o número 1! Quer dizer, era o número 1… hoje pode ser 01, 12, 22, 88, 99…

Gylmar dos Santos Neves, sinônimo e síntese de goleiro*

Esse negócio de efemérides é um perigo. Algumas me deixam nostálgico mais do que bebum com dor de cotovelo. Uma delas é essa de hoje, a do Dia do Goleiro. Na bucha, sem pensar duas vezes, me vem em mente Gilmar dos Santos Neves. Pra mim, desde garoto, o antigo guarda-metas (como se dizia) do Santos dos anos 1960 é sinônimo de Goleiro, resumo de posição encantadora e maldita no futebol. Um gigante, um monstro, um craque, um galã, um gentleman. Um dos meus ídolos de sempre.
Lembro de Gilmar todo de preto, cotovelos e laterais do calção acolchoados. Uma segurança extraordinária no gol de um time temível, que rodava o mundo deixando rivais felizes e honrados com as surras que levavam. Lá atrás, estava o grande Gilmar, que crescia, ficava enorme na frente dos atacantes, e parecia não fazer força nenhuma na hora de defesas memoráveis. Era a pedra de segurança de uma equipe que encantava o mundo, me fascinava.
Gilmar também levava sua imponência para a seleção. Era o dono da grande área, senhor absoluto embaixo dos três paus. E não era espalhafatoso! Não lembro de tê-lo visto dar saltos de gato, como Manguinha, nem de sair tresloucado nos pés dos adversários. Nada. Era discreto, sóbrio. Passava-me sempre a sensação de que voltava para os vestiários impecável, com o uniforme limpo e pronto para ser dobrado e guardado. Meu primeiro sonho de infância ligado ao futebol era ser goleiro, era ser Gilmar.
E Gilmar eu me sentia quando ia na casa do vizinho, no Bom Retiro, para escarafunchar os fardamentos do time de várzea que a dona Lurdes, mulher do Nenê, lavava para ganhar uns trocados. Eu pegava a camisa e o calção do goleiro, vestia-os, sumia dentro daquela roupa (que fedia a atleta, mesmo com montanhas de sabão em pó) e me imaginava a fazer defesas que arrancavam aplausos da torcida que lotava o Pacaembu e o Maracanã.
Contemporâneos de Gilmar, e que até hoje recordo como extraordinários (aos meus olhos de garoto, pelo menos), também eram Cabeção, Valdir de Moraes, o russo Yahsin (o Aranha Negra), Picasso, o próprio Manga, Orlando, Marcial, Heitor (que um dia pegou pênalti de Pelé!), Machado (que num jogo do Botafogo de Ribeirão Preto levou 11 gols do Santos e ainda evitou outros 22), Castilho.
Depois vieram Felix, Raul (e sua cabeleira e camisa amarela), Leão, Sérgio Valentim, Banks (o da defesa em cabeçada de Pelé na Copa de 70), Andrada (o do milésimo do Pelé), Rojas, Rodolfo Rodrigues (sempre Santos, sempre Pelé…), Fillol, Butice. Mais novos, como Valdir Perez, Carlos, Taffarel, Zetti, Paulo Victor, Ronaldo. Até chegar em Velloso, Dida, Marcos, Rogério Ceni, Júlio Cesar, Gomes, Vitor, Fábio, Van der Saar, Buffon, Casillas…
A lista é enorme, e certamente estarei a esquecer centenas de nomes importantes, por ignorância e por falha de memória. Mas, com a recordação, pra mim eternamente doce, de Gilmar, deixo aqui minha homenagem ao goleiro, o número 1! Quer dizer, era o número 1… hoje pode ser 01, 12, 22, 88, 99…

Sunday, December 16, 2012


A homenagem vai por ser um time peba que não teve a capacidade de ganhar uma pustema.

Homenagem ao Chelsea


A homenagem vai por ser um time peba que não teve a capacidade de ganhar uma pustema.

Tuesday, December 11, 2012

"Dentro do pano de fundo geral do futebol visto como acontecimento trágico, o goleiro simbolizava, para Nelson Rodrigues (1912-1980), o zelador ou guardião de um sumo bem alvo da cobiça alheia (o gol). Para dar conta de realizar essa tarefa da melhor maneira possível, precisava possuir qualidades sobre-humanas (clarividência, capacidade de voar, onisciência, etc.). Porém, havia momentos em que tais qualidades, por si só, não bastavam. Nessas horas, alguns deles agraciadamente recebiam a ajuda de entidades ou dádivas celestiais (...) que passavam a guiar suas atitudes tal qual um marionete. Mesmo assim, em certas ocasiões a falha aparecia, muitas vezes trazendo consigo uma sensação inesperada de surpresa e impotência (o inesquecível caso de Barbosa).
Além dessa, as colocações do jornalista permitem-nos ventilar um outro aspecto concernente ao goleiro, mais sutil e menos óbvio. Na medida em que concebia esse esporte como uma representação mimética dos misteriosos contornos assumidos pela vida humana para os quais não há explicações lógicas (daí, a idéia de atribuí-los a obscura vontade de deuses), o perfil das situações protagonizadas pelo goleiro nas suas peculiares descrições retratam os estados mais intensos de incerteza a que o homem pode chegar quanto ao seu destino imediato. Em outras palavras, o agir do goleiro, com todos os seus requintes, encarna os paroxismos a que a imprevisibilidade inerente a toda existência humana consegue atingir, bem como os desdobramentos ímpares que ela abriga. Por conseguinte, quando ele é chamado a intervir, cessa a propensão para a rotina, porque a iminente quebra de continuidade no curso dos eventos sempre estará em vias de acontecer.
Assim, ao canalizar para si as atenções e expectativas tanto de espectadores como companheiros e adversários por causa dessa singularidade, sem, todavia, permitir-lhes fazer nenhuma inferência segura sobre o que sucederá logo nos instantes ulteriores à sua participação, o goleiro contribui para instigar em cada um deles a visceral sensação de estarem vivos. Os escritos do jornalista testemunhavam nas suas entrelinhas esse singelo fato, o de que a certeza e de se experimentar vivo esbarra do acolhimento da vida como fonte de incertezas, cabendo ao goleiro, no contexto maior do palco do futebol, dar corpo a essa verdade".

* In: GAMA, Dirceu Ribeiro Nogueira da. A tragédia futebolística e o papel do goleiro enquanto protagonista principal: revendo as crônicas de Nelson Rodrigues. In: http://www.efdeportes.com/efd159/revendo-as-cronicas-de-nelson-rodrigues.htm. Acesso em: 06 de janeiro de 2012.

Despedida de Marcos

"Dentro do pano de fundo geral do futebol visto como acontecimento trágico, o goleiro simbolizava, para Nelson Rodrigues (1912-1980), o zelador ou guardião de um sumo bem alvo da cobiça alheia (o gol). Para dar conta de realizar essa tarefa da melhor maneira possível, precisava possuir qualidades sobre-humanas (clarividência, capacidade de voar, onisciência, etc.). Porém, havia momentos em que tais qualidades, por si só, não bastavam. Nessas horas, alguns deles agraciadamente recebiam a ajuda de entidades ou dádivas celestiais (...) que passavam a guiar suas atitudes tal qual um marionete. Mesmo assim, em certas ocasiões a falha aparecia, muitas vezes trazendo consigo uma sensação inesperada de surpresa e impotência (o inesquecível caso de Barbosa).
Além dessa, as colocações do jornalista permitem-nos ventilar um outro aspecto concernente ao goleiro, mais sutil e menos óbvio. Na medida em que concebia esse esporte como uma representação mimética dos misteriosos contornos assumidos pela vida humana para os quais não há explicações lógicas (daí, a idéia de atribuí-los a obscura vontade de deuses), o perfil das situações protagonizadas pelo goleiro nas suas peculiares descrições retratam os estados mais intensos de incerteza a que o homem pode chegar quanto ao seu destino imediato. Em outras palavras, o agir do goleiro, com todos os seus requintes, encarna os paroxismos a que a imprevisibilidade inerente a toda existência humana consegue atingir, bem como os desdobramentos ímpares que ela abriga. Por conseguinte, quando ele é chamado a intervir, cessa a propensão para a rotina, porque a iminente quebra de continuidade no curso dos eventos sempre estará em vias de acontecer.
Assim, ao canalizar para si as atenções e expectativas tanto de espectadores como companheiros e adversários por causa dessa singularidade, sem, todavia, permitir-lhes fazer nenhuma inferência segura sobre o que sucederá logo nos instantes ulteriores à sua participação, o goleiro contribui para instigar em cada um deles a visceral sensação de estarem vivos. Os escritos do jornalista testemunhavam nas suas entrelinhas esse singelo fato, o de que a certeza e de se experimentar vivo esbarra do acolhimento da vida como fonte de incertezas, cabendo ao goleiro, no contexto maior do palco do futebol, dar corpo a essa verdade".

* In: GAMA, Dirceu Ribeiro Nogueira da. A tragédia futebolística e o papel do goleiro enquanto protagonista principal: revendo as crônicas de Nelson Rodrigues. In: http://www.efdeportes.com/efd159/revendo-as-cronicas-de-nelson-rodrigues.htm. Acesso em: 06 de janeiro de 2012.