Sunday, April 21, 2013

Mito universal*

No fim do Império, início da República, até mesmo os monarquistas começaram a reivindicar para si a herança de Tiradentes. Escrevendo após a proclamação [1889], o visconde de Taunay reclamava contra o monopólio que os republicanos, especialmente os jacobinos, queriam manter sobre a memória do herói. Ao libertar o país, o Império, alegava, realizou o sonho de Tiradentes. Por essa razão, “também ele nos pertence”.
A aceitação de Tiradentes veio, assim, acompanhada de sua transformação em herói nacional, mais do que em herói republicano. Unia o país através do espaço, do tempo, das classes. Para isso, sua imagem precisava ser idealizada, como de fato o foi. O processo foi facilitado por não ter a história registrado nenhum retrato seu. Restaram apenas algumas indicações nos autos. A idealização de seu rosto passou a ser feita não só pelos artistas positivistas, mas também pelos caricaturistas das revistas ilustradas da época. Para os positivistas, a idealização dos heróis era regra da estética comtiana [do positivista francês Auguste Comte]; para os outros, era apenas parte da tentativa geral de criar o mito e o culto do herói.
Esse esforço foi agudamente percebido por Ubaldino do Amaral Fontoura, orador oficial das celebrações do Clube Tiradentes em 1894. Ubaldino não se preocupa com os traços fisionômicos de Tiradentes. “Foi talvez uma felicidade que esse Cristo não deixasse na terra um sudário. Cada artista lhe tem dado diferente feição.” Já foi representado, acrescenta, com a doçura de Jesus, com os traços dos heróis antigos, e até mesmo como caboclo.
A tentativa de transformar Tiradentes em herói nacional, adequado a todos os gostos, não eliminou totalmente a ambigüidade do símbolo. O governo republicano tentou dele se apropriar, declarando o 21 de abril feriado nacional e, em 1926, construindo a estátua em frente ao prédio da Câmara [do Rio de Janeiro]. Durante o Estado Novo [1937-1945], foram representadas peças de teatro, com apoio oficial, exaltando a figura do herói. Foi também dessa época (1940) a primeira tentativa de modificar a representação tradicional, estilo nazareno. José Wasth Rodrigues, colaborador do integralista Gustavo Barroso, pintou Tiradentes como alferes da 6a Companhia do Regimento dos Dragões. O herói cívico é aí um militar de carreira. Os governos militares recentes foram mais longe. Uma lei de 1965 declarou Tiradentes patrono cívico da nação brasileira e mandou colocar retratos seus em todas as repartições públicas.
Mas a esquerda também dele não abriu mão, desde os jacobinos até os movimentos guerrilheiros da década de 1970, um dos quais adotou seu nome. Portinari o pintou na década de 1940, mantendo a aproximação com a simbologia religiosa. Seu “Os despojos de Tiradentes no caminho novo das Minas” mostra os pedaços do corpo pendendo de postes e mulheres ajoelhadas que lembram a cena do Calvário. Na década de 1960, o Teatro de Arena também reviveu a imagem subversiva do inconfidente. O segredo da vitalidade do herói talvez esteja, afinal, nessa ambigüidade, em sua resistência aos continuados esforços de esquartejamento de sua memória.

* CARVALHO, José Murilo. Mito universal. Disponível em: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/conteudo-complementar/mito-universal. Acesso em: 20 de abril de 2013.

José Murilo de Carvalho nasceu a 8 de setembro de 1939 na cidade de Piedade do Rio Grande, em Minas Gerais. Formou-se em bacharel em Sociologia e Política pela Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1965, fazendo suas pós-graduações (especialização, mestrado e doutorado) em instituições norte-americanas e inglesas. Dono de uma grande produção bibliográfica, José Murilo de Carvalho se destacou por buscar "interpretar a dinâmica conflituosa do imaginário político-social lançando mão, além das fontes tradicionais, de um vasto material cultural, como imagens plásticas, música, literatura e charges". Como historiador, entre suas obras mais importantes talvez A Formação das Almas (1990), onde se propõs "discutir mais a fundo o conteúdo de alguns dos principais símbolos utilizados pelos republicanos brasileiros e, na medida do possível, avaliar sua aceitação ou não pelo público a que se destinava, isto é, sua eficácia em promover a legitimação do novo regime" (p. 13), ou seja, o processo de formação dos símbolos republicanos, entre eles os seus heróis. 

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